Pode ir. Mas eu não te perdoo

by - 15:18

Depois de ter tomado internamente a decisão de ir morar fora do Brasil, chegou a vez de comunicar amigos e família.

Foi mais fácil do que eu pensava, já que todo mundo me deu o maior apoio. Claro que ficaram todos com o coração apertado por saber que a distância de meio planeta nos separaria, mas foram muito compreensíveis e incentivadores afinal de contas, sobreviver no Brasil anda bem difícil ultimamente.

Tive festa de despedida com meus amigos, abracei forte meus pais e irmã, meus tios e primos e ouvi o quanto eu era corajosa e o quanto eles gostariam de poder fazer exatamente o que eu estava fazendo: largando tudo, deixando a vida pra trás e embarcando pra uma experiência totalmente nova em outro lugar onde eu certamente seria tão ou mais feliz.



Mas eu sabia no fundo do meu coração que todos eles me apoiavam, porem, não me perdoavam por ter tido a coragem e a ousadia de ter partido e os deixado pra trás. E quem verbalizou isso foi uma criança em sua completa ingenuidade e honestidade; minha afilhada que beirando os seus 10 anos de vida, botou pra fora toda a sua mágoa, tristeza, indignação e raiva por ter “perdido” sua madrinha pra um país distante e cheio de cangurus, um lugar que ela nunca virá visitar.

Foi minha afilhada quem numa mensagem de áudio via whatsapp me disse eu não entendo e nunca vou te desculpar por tu ter me deixado aqui e ter ido pra tão longe”. A voz era dela, mas o texto era de todos os adultos que ficaram do lado de lá do mundo.  Nenhum dos que já atingiram a maioridade me disseram isso, pelo contrário, todos sempre usaram palavras de incentivo e encorajamento, mas eu sempre percebi que por debaixo daquelas falas todas havia um outro tipo de sentimento sublimado. E somente uma criança com toda a sua franqueza e seus olhos sem vícios é que poderia descortinar com tanta simplicidade e clareza o que estava escondido dentro de todo mundo.


Sim, foi uma menina de apenas 10 anos de idade quem usou as palavras mais duras e mais sinceras pra me dizer “eu sei que foi melhor pra ti, eu sei que tu ta feliz ai, mas eu não te perdoo”. No áudio dela eu pude ouvir a voz das minhas amigas de longa data que lamentam o nosso distanciamento, dos meus pais e da minha irmã que sofrem com a minha ausência, dos meus tio e primos que reclamam o lapso na nossa convivência.

Das tantas dores que sofremos por morar longe de casa e de quem amamos, talvez essa seja a que mais dói: a de saber que não há perdão pra nossa decisão.







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2 comentários

  1. Oi lu! Obrigada pelo texto, acho que reflete muito o que a maioria das pessoas que decidem morar fora do país passam - pelo menos as que são apegadas a familia. Eu acho que a gente não tem muita opção..temos que seguir o que o coração manda.. clichê mas é verdade. Acredita que minha relação com a minha mãe melhorou na época de intercâmbio? As conversas eram mais enxutas, não nos falavamos frequentemente, mas ganhamos em qualidade na conversa. A vida ensina a gente tirar coisas boas ate das situações mais complicadas. Um beijo e vou continuar a ler seus posts!

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  2. Olá Lu, sua história foi muito bacana.
    Estou me decidindo a fazer é tomar a mesma decisão que tomou, como não sou apegada a ninguém acho que não terei este problema... Mas gostei muito do seu Blog e vou te acompanhar

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