Aceitação: a polêmica sobre o meu cabelo

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Aceitar. De acordo com o dicionário da língua portuguesa, aceitar é um verbo transitivo direto que significa estar de acordo, conformar-se. Nunca antes na história da humanidade se ouviu falar tanto em aceitação. Ta na moda se aceitar.

Desde sempre meu cabelo foi ondulado e desde sempre tive uma juba. Quando era adolescente, naquela fase da vida em que é obrigatório ter o cabelo comprido e liso pra ficar igual ao bando, eu me rendia ao secador e à escova numa época em que chapinha e progressiva eram apenas um delírio. No começo da minha vida adulta, quando a tecnologia avançou e se sofisticou, me submeti à tratamentos químicos agressivos pra ficar lisinha como sempre sonhei e como ditavam as capas de revista.  Entretanto, a última vez em que sentei na cadeira de um cabeleireiro pra quimicamente alisar meu cabelo foi em 2015, pouquinho antes de me mudar pra Sydney.


A escrava moderna

Um ano depois que cheguei aqui e com o cabelo metade liso e metade crespo, comecei a usar chapinha pra me sentir menos pior. Meu cabelo é extremamente volumoso e isso me incomoda demais. As ondas e os cachos eu curto, mas o volume à la mulher samambaia me tira do sério. Na correria da vida aqui e sem tempo pra nada, resolvi abandonar chapinha e secador e assumir a cabeleira do jeito que ela é. Aceitei, o que não significa que tenha passado a gostar. Se pudesse escolher ser naturalmente lisa, escolheria sem piscar. Cabelo liso é mais rápido, fácil e muito mais barato de manter.

É assim que eu me vejo


Atualmente me encontro totalmente crespa, com o cabelo bem cacheado e volumoso. A trabalheira que me dá é inimaginável: são pelo menos 20 minutos debaixo do chuveiro pra lavar a juba, depois mais uns 15 minutos separando o cabelo encharcado em mechas pra poder aplicar creme de pentear e depois mais uns 10 minutos amassando o cabelo de baixo pra cima com uma camiseta (crespa não pode chegar perto de toalha) pra modelar os cachos e evitar o frizz. A fortuna que tenho em casa não é em joias, bolsas de marca ou eletrônicos de última geração e sim, em produtos pro cabelo, afinal de contas, mulher crespa não pode se dar ao luxo de pagar 5 pilas num litrão de shampoo qualquer do supermercado. Um shampoo sem sulfato, sem parabenos, sem siliciones ou derivados de petróleo não custa menos de AUD 20.00. O mesmo vale pros leave ins. Tenho que dormir com a cabeça enrolada numa camiseta ou então sobre uma fronha de cetim, ja que as fibras do tecido de algodão deixam o cabelo cheio de frizz e desmancham os cachos.


Arsenal pra domar a juba


Eu reclamo disso e reclamo mesmo, é um direito meu embora eu tenha plena consciência de que resmungar não vai mudar em asbolutamente NADA a minha realidade. E viro fera quando alguém me diz que eu deveria aceitar o meu cabelo do jeito que é pois acho esse discurso de uma hipocrisia e demagogia sem tamanho e vou explicar por que.


Tenho 41 anos e como toda mulher nessa idade, tenho algumas rugas. Nunca na minha vida pensei em fazer preenchimento, plástica ou me encher de botox pra tentar parecer mais jovem. Eu aceito as minhas rugas e elas não me incomodam.


Tenho algumas manchas no rosto causadas por uma pré-disposição genética e acentuadas pelo uso de pílula anticoncepcional. Nunca me enchi de reboco (vulgo maquiagem) na cara pra esconder essas “imperfeições”. Eu aceito as minhas manchas, convivo super bem com elas e não preciso de maquiagem pra escondê-las. Meus seios sempre foram pequenos porque eu sou uma pessoa pequena, mas nunca passou pela minha cabeça me submeter à uma cirurgia pra implantar silicone. Eu aceito meus peitos minúsculos e to em paz com eles. Como toda mulher de 41 anos, tenho alguns cabelos brancos, mas to muito longe de me tapar de tinta pra escondê-los. Eu aceito meus cabelos grisalhos. Com muita propriedade eu posso dizer que sou original de fábrica e que aceito todas as minhas imperfeições.


A única coisa que realmente me incomoda na minha aparência é o volume excessivo do meu cabelo e mesmo assim, há mais de 2 anos não recorro à alisamentos, secadores ou chapinhas como a maioria das mulheres faz e como muita gente me sugere. Quando a situação capilar ta realmente ultrapassando os limites eu saio pra rua com uma manta cobrindo os cabelos ou enfio um boné na cabeça. Tô pouco me lixando pro que vão pensar.

Porém,  quando resolvo reclamar, ouço de gente botocada, implantada, alisada dizendo que eu tenho que me aceitar. Peraí. Quem aqui precisa se aceitar? Você que se encheu de procedimentos estéticos e tem a cara de pau encerada com primer, CC cream, base e o escambau ou eu, que mesmo detestando o meu cabelo volumoso, ainda ando com ele do jeito que é?

O que mais vejo ao meu redor é gente que não se aceita e ainda assim, dá moral dizendo pros outros se aceitarem. O que eu mais vejo é gente esteticamente modificada e ainda assim, enchendo a boca pra dar discurso sobre aceitação. Só posso concluir que tanta química e tanta intervenção acabou matando alguns neurônios na cabeça desse povo.

E so pra acabar de vez com o assunto aceitacao, abaixo esta a foto da Megan Markle, a queridinha do momento que subira ao altar pra casar com o principe Harry nos proximos dias. Megan Markle, pra quem nao sabe, tem o cabelo crespo, MUITO crespo. Megan Markle se alisa e ninguem fala nada. Megan Markle nao se aceita, que fique bem claro. E nao preciso dizer que Megan Markle nao seria aceita pela realeza britanica se continuasse com o cabelo natural porque isso ja ta mais do que obvio.



Ou voce conhece alguma princesa crespa? Nem as da Disney.





Eu sou voce ontem





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