Virando a Própria Mesa – Parte 20: Onde os fracos não tem vez

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Já são quase 7 meses longe do Brasil vivendo aqui em Sydney. Depois de um período de reconhecimento do terreno e de adaptação (até o 3º mês), passando por uma temporada de estabelecimento de rotinas (entre o 4º e o 5º mês), hoje minha vida está estável por aqui tal qual uma aeronave que decola do aeroporto, atravessa as nuvens e passa a turbulência pra então estabilizar no ar e atingir altura e velocidade de cruzeiro. É nessa parte da viagem que eu estou. Já posso me permitir relaxar um pouco, afrouxar os sapatos e ver o mundo ficando pequenininho la embaixo, até sumir por completo.

Meu dia-a-dia é corrido e por isso não tenho conseguido dar atenção pro blog, embora tenha planos ambiciosos pra ele num futuro não muito distante. O fato é que nos últimos 60 dias mergulhei numa rotina pesada de trabalho que se sobrepôs com a minha vida de estudante. Costumo brincar que a minha semana começa na sexta-feira e termina na terça a noite, quando saio exausta do restaurante depois de 5 dias e noites trabalhando direto. Se na minha vida passada eu jamais trabalharia aos sábados e domingos, nessa vida nova são nesses dias que eu justamente mais trabalho.

Esses quase 7 meses fora do Brasil vivendo uma vida completamente oposta à que eu tinha la, se equivalem a pelo menos uns 2 anos de terapia intensiva. Explico: apesar de estar aqui morando com a minha família, o que é um grande diferencial e de certa forma, um luxo, viver em outro país maximiza todos os acontecimentos, abre todos os poros e chacras, disseca toda a alma. Um imigrante evolui na marra, revê todos os seus conceitos, aprende a enfrentar todos os seus piores medos e aflições pra simplesmente sobreviver por 24 horas. Um dia depois do outro. Aqueles que não dão conta da pressão acabam voltando mais cedo pra casa. Porque a pressão é enorme e nos ataca diariamente por todos os lados e de todas as formas: seja o idioma que não dominamos, seja um ofício novo que precisamos aprender pra poder fazer dinheiro que nos permita ter um teto pra morar e algo pra comer, seja o preconceito por não sermos locais, seja a saudade da família, dos amigos e das pequenas coisas que deixamos pra trás, seja o choque cultural que temos que encarar. E entender e passar por isso tudo é um processo extremamente solitário, pessoal e intransferível que só quem vive fora do seu habitat natural consegue compreender.

Claro que existem compensações que acabam amenizando e amortizando as partes difíceis da vida longe do país de origem. As amizades que se faz aqui com outros imigrantes são mais fraternas e mais genuínas, afinal de contas, nada nos difere e estamos todos no mesmo barco. A gente se torna mais fortes, mais humildes, aprende a contar com a gente mesmo. E ainda tem tudo aquilo que só quem vive em país de primeiro mundo conhece: segurança, respeito ao próximo, senso de coletividade, educação, igualdade social. E tem as praias, cada uma mais linda que a outra. Tem a vista estonteante pra Harbour Bridge e pra Ópera House que até hoje, quase 7 meses depois, ainda me arrepiam e me emocionam como se eu tivesse vendo aquela paisagem pela primeira vez. Tem uma flora e uma fauna completamente novas e absurdamente lindas.


E que venham mais 7 meses. E mais 7. E outros 7.

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1 comentários

  1. Lu, que bom te ler e poder te sentir, mesmo que tão longe, perto.
    Posso imaginar o tabto de experiências que tens vivido aí. Isto é demais. Isto faz viver.
    Mesmo sentindo saudade, é tão bom saber que alguém bacana como tu conseguiu ir embora daqui. Porto Alegre, especificamente, está passando por uma transformação negativa por mim nunca antes vista. E pelo que converso com outras pessoas, mais velhas, inclusive, tbém nunca viveram. A violência e a insegurança crescem assustadoramente. E não é coisa de jornal. São coisas que acontecem com o colega de sala, com o vizinho, com o familiar. As pessoas andam com medo. Inseguras. Antes falava-se que o Rio era violento, São Paulo, etc. Agora o que ouve-se é que Porto Alegre está com índices de violência maiores do que estas lugares. Absurdo. Muito triste passar com medo e desconfiando de tudo e todos.
    Sentir-se livre não tem preço. Fico feliz por ver o quanto tu estás te sentindo livre!

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