A place without no name: uma roadtrip pelas minas de opal no deserto australiano

by - 13:03

"Apenas apanhei na beira mar
um táxi pra estação lunar"
(Táxi Lunar - Zé Ramalho)

Um dos aspectos que reconheço em mim mesma é a minha dificuldade de dizer não pras coisas e isso já me meteu em algumas roubadas, embora não tenham sido muitas. Mas essa mesma mania de não dizer não pra nada também já me rendeu muitas experiências boas e histórias incríveis pra contar. E essa que vou compartilhar agora é mais uma pra minha biografia.

Tem um cara que quase todas as noites aparece pra jantar no restaurante onde eu trabalho. Ele sempre chega sozinho, senta na mesma mesa, pede uma taça de Shiraz e algo pra comer. É um homem alto, pele bronzeada e olhos claros, muito charmoso, quieto e simpático. Logo depois de dar um gole no vinho, ele vai até os fundos do restaurante pra fumar um cigarro. E foi numa dessas ocasiões que o conheci. Conversando sobre a minha vida aqui na Austrália, ele me perguntou se eu já havia ido pro deserto e eu respondi que não, mas que morria de vontade de viajar pelo outback, conhecer Alice Springs e Uluru, a imensa pedra no meio do nada que muda de cor e é sagrada pros aborígenes. Ele me disse que um dia poderia me levar la e me convidou pra conhecer o deserto de New South Wales e as minas de opal, na região de Lightning Ridge. Achei um pouco ousado o convide de um estranho,fui educada e apenas agradeci.

Até que numa outra noite em que apareceu pra jantar, ele me convidou de novo pra ir com ele até Lightning Ridge e à mina de opal que ele tem num acampamento a 80km dali. Ele iria a trabalho, disse que não ia me matar (!!!) e que eu poderia convidar uma amiga pra ir junto se quisesse. Pensei, mas não pensei muito. E como não sei dizer não e nem recusar convites, especialmente pra viajar, aceitei na hora sem saber absolutamente nada sobre o cara e sobre o destino. Inconsequente? Pra muitos sim. Mas vi naquela viagem com aquele estranho uma oportunidade única de conhecer um lugar remoto e não turístico na Austrália pelas mãos de um australiano, de experienciar coisas absolutamente novas, sair da rotina exaustiva que tenho e óbvio, ter história pra contar. Porque pra mim essa é a graça da vida: acumular vivências muito mais do que coisas. Estava decidida a ir com ele e só precisava encontrar alguém livre, leve e solta pra me acompanhar na aventura e compartilhar comigo daquela loucura. Nem precisei pensar muito e na hora já me veio à cabeça a imagem da Ana, minha colega de trabalho e amiga, uma alma curiosa como a minha. Quando fiz o convite ela nem piscou e aceitou na hora, achando o máximo a aventura que iríamos viver.

E assim foi. Às 5h da manhã do sábado, dia 21 de novembro, Jeremy, o australiano dono da mina de opal no deserto, veio nos buscar numa espécie de camionete onde só cabiam nós os 3. Pegamos a estrada quando o dia em Sydney mal amanhecia e dirigimos pela auto estrada M4, no caminho das Blue Mountains, até entrarmos na B55, onde paramos pra tomar café da manhã numa cidadezinha minúscula cujo nome nem lembro, mas onde havia um Mc Donald’s. Um cara gente finíssima chamado Greg se juntou à nossa excursão e seguimos adiante até Mudgee, onde novamente paramos. O ar frio que nos acompanhou até as Blue Mountains deu lugar a uma brisa morna e o céu antes nublado, agora era de um azul intenso como poucas vezes vi na vida.

On the road - Eu e a Ana em algum ponto do mapa australiano

O carro que virava casa

De Mudgee seguimos mais um pouco até Gilgandra, uma cidadezinha quase fantasma no meio do nada. Chegamos la por volta das 2 horas da tarde e o calor era absurdo, o que fazia com que toda a população de menos de 5.000 pessoas se escondessem dentro de casa pra fugir daquele mormaço. Seguimos viagem e passamos por Dunedoo, Gulargambone, Combara, Coonamble. Todas elas eram cidades minúsculas que se resumiam a 2 ou 3 ruas e que pareciam ser cenários de filme de faroeste. Até que por volta das 4 e meia da tarde chegamos a Cumborah, uma região desértica que lembra muito a paisagem do filme Mad Max (coincidentemente um filme australiano), com vegetação típica do clima semi árido, uma areia branca, muita poeira e nada nem ninguém ao redor. Paramos num pub chamado Club in the Scrub pra beber uma cerveja e o local era indescritível. Sentamos na rua e enquanto bebíamos, cangurus passavam pulando no meio daquela paisagem lunar.

Um pub no meio do nada

Depois de quase 12 horas de viagem chegamos finalmente na casa no meio do nada onde ficaríamos e fomos super bem recebidas pela Jam e pelo John, o simpático e amável casal que mora la. Ela nos contou que largou a carreira de contadora em Sydney pra viver no meio do deserto, num lugar simples mas muito organizado e bem equipado. Aos 75 anos, a vida da Jam se resume em cuidar do marido, da casa e da operação na mina de opal que tem na sua porta. Até que chegou a hora do jantar e o Jeremy e o Greg nos levaram na garupa das suas motocicletas pra comer num pub logo ali perto. Tão logo eu e a Ana colocamos os pés no lugar, viramos atração turística pras quase 20 pessoas que faziam suas refeições ali ou simplesmente bebiam suas cervejas. Todos nos cumprimentaram e alguns vieram conversar conosco, querendo saber quem éramos e de onde vínhamos. Um povo muito amigável e interativo, o extremo oposto dos habitantes de Sydney, que vivem com a cara enfiada em seus smartphones e não olham pros lados. Era hora de descansar e ficamos instaladas num trailler ao lado da casa e depois de muito tempo pudemos dormir 12 horas seguidas. Não lembro quando foi a última vez que dormi tanto.

 As cocotas no puleiro na porta da casa

 O trailler onde ficamos e o carro que virou casa

 Banho de balde 0_0
 O diário da Jam registrando a nossa chegada :-)

 A casa e a entrada pra mina de opal

Jam, nossa hostess

No dia seguinte acordamos e todos da casa já estavam envolvidos em suas tarefas. A Jam preparou pequenas panquecas pro nosso café da manhã e em seguida nos levou pra conhecer os outros acampamentos e a comunidade local. Pudemos interagir com a população, que basicamente vive em traillers e sobrevive da exploração do opal. A grande maioria deixou suas vidas em grandes cidades australianas pra morar naquele local e são todos muito felizes com o que tem. Uma das senhoras que visitamos e que trabalhava fazendo joias, nos disse que jamais voltaria a morar numa cidade ou numa casa e que ela gostava mesmo era da vida no deserto, no seu trailler, podendo ir e vir pra onde bem entendesse a hora que quisesse. Depois desse longo passeio à bordo do caminhãozinho da Jam, paramos num outro pub pra refrescar a garganta já que o clima por lá é bem seco e é recomendável se hidratar o tempo todo. No final do dia, empacotamos nossas coisas e pegamos a estrada rumo à Lightning Ridge.


 Outro pub no meio do nada

 Casa de mineiro

 Uma esquina no meio do deserto

 Hard work na mina de opal

 Let's have a break mate!


Chegamos à pequena cidade ao entardecer e ficamos hospedados numas cabanas logo na entrada. O por do sol era incrível e sentamos pra fazer um churrasco no melhor estilo australiano, com bacon e salsichas. No gramado ao lado das churrasqueiras, um par de cangurus nos vigiava de longe. Depois da janta fomos até a estação de águas termais e experimentamos um banho de piscina a 40 graus, uma sensação absolutamente relaxante debaixo de um céu tapado de estrelas.

 Os cangurus em Lightning Ridge

As piscinas de água termal


Valeu!!


Na segunda-feira empacotamos tudo de novo, tomamos mais um banho na piscina de água termal e pegamos a estrada de volta pra Sydney. Foi uma viagem curta, rápida, embora tenha sido longa no que diz respeito a quantidade de quilômetros que percorremos, mas foi uma experiência sensacional, indescritível, maravilhosa. Ter aceitado o convite de um estranho pra viajar em momento algum me trouxe medo ou bad feelings e o tempo todo ele foi muito legal e respeitoso com a gente, nos tratando maravilhosamente bem. Foi necessário ter me afastado por uns poucos dias da rotina e voltei diferente pra encarar o que vem pela frente.


Essa foi a primeira aventura de muitas que ainda pretendo viver aqui na Austrália. E que venha a próxima!

**Esta viagem foi sponsorada pela Vice-Roy**

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1 comentários

  1. Lu,
    Que relato bacana. Fiquei imaginando as paisagens e as vivências que vcs experimentaram. Totalmente demais! A vida é dos corajosos. E é preciso confiar nas pessoas. Que bom que vcs confiaram e viveram tantas coisas legais, conheceram gente bacana, lugares lindos.
    E não pude deixar de pensar que tua amiga é Ana e poderia ser eu, kkkk.
    Muita curtição!
    Sorte!
    Sigo te vendo por aqui!
    Bjs,
    AP

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