Virando a Própria Mesa – parte 19: Pequenas grandes vitórias

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Do plano que tracei pra mim mesma quando decidi deixar de morar no Brasil pra vir pra Austrália, a meta final era conseguir o passaporte australiano. Isso é o que eu vislumbro lá na frente, em alguns anos. Então boa parte das minhas ações, do meu foco, da minha energia, dos riscos que assumo, me levam em direção à essa meta e falando assim até parece que ela é a única vitória que poderei celebrar e que outras pequenas coisas que acontecem no caminho não tem a menor importância porque não são o prêmio principal, o troféu que será levantado no pódium na grande final, que no meu caso será a escalada da Harbour Bridge.

Me dei conta disso no dia em que dirigi sozinha aqui pela primeira vez. Já havia dirigido duas ou três vezes antes, mas sempre com meu irmão no banco do carona. Sem ele eu não tinha coragem de me aventurar pelas ruas guiando sentada no banco oposto ao que estava acostumada e muito menos do lado contrário das ruas. Até que um dia precisei sair de carro pra uma reunião bem perto de onde moro. Um trajeto basicamente em linha reta, sem muitos desafios. Antes de entrar no carro, comecei a suar. Minhas mãos molharam, meu coração acelerou e voltei no tempo quando saí de carro sozinha no Brasil pela primeira vez aos 18 anos. Tava morrendo de medo de, por instinto e costume, dobrar do lado errado da rua, de bater em alguém, de causar algum acidente, de me perder. Mas eu consegui chegar ao meu destino sã e salva e mais do que isso, consegui superar o medo que me afrontava segundos antes. Um pequeno passo pra humanidade, mas um grande passo pra mim mesma. Porém, no instante em que estacionei o carro, aliviada por ter conseguido, não comemorei e nem dei importância ao meu feito porque, afinal de contas, não havia realizado nada de tão extraordinário.

Mas logo depois percebi o quanto deixamos de comemorar e de nos sentirmos orgulhosos de nós mesmos quando realizamos pequenas coisas  -  algumas até idiotas como dirigir um carro- e que só costumamos dar valor e celebrar aquilo que parece estrondoso, impossível, inatingível, grandioso, desafiador. Celebramos a compra de um carro, de uma casa e a conquista de um bom emprego, mas nunca festejamos da mesma forma quando perdemos o medo de viajar de avião ou quando conseguimos ficar 15 dias sem fumar. Abrimos o melhor champanhe que temos na geladeira pra comemorar a conclusão da faculdade, mas dificilmente faríamos o mesmo pra celebrar que conseguimos aprender um novo idioma. E assim vamos deixando de enaltecer pequenos ,porém importantes, acontecimentos que nós mesmos conseguimos com uma boa dose de esforço, e apenas ressaltamos aquilo que é de grande magnitude. Mas a vida e a evolução de cada um de nós é uma soma constante de pequenas vitórias que um dia nos irão preparar para a que julgamos ser a maior de todas.

Desde que percebi isso, passei a enfatizar e a comemorar as minhas modestas conquistas e os desafios diários que consigo superar e que vão desde dirigir sozinha até andar de bicicleta com as mãos pro alto (algo que jamais consegui fazer na minha infância), até perder o medo de pedir um emprego. Coisas simples, singelas, mas que aos poucos vão me preparando pro desafio final: comemorar a cidadania perdendo o medo de altura no topo da Harbour Bridge.


Nesse dia o champanhe será por minha conta.



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