Refugiada: eu também sou

by - 12:39

"The only thing harder than loosing home is trying to find it again"
(Stephanie Bishop - The Other Side of The World)

Há pouco eu estava na academia, correndo e suando na esteira enquanto olhava as notícias na tela da TV que fica bem na minha frente. O destaque dos telejornais todos era a situação dos refugiados da Síria que tentam asilo na Europa, tendo a Hungria como porta de entrada. A cena em looping exibida pelo canal 7 aqui da Austrália mostrava uma mulher síria agarrada a um bebê, jogada sobre os trilhos de trem em Budapeste enquanto um compatriota, que eu imagino ser seu marido, os abraçava na tentativa de protegê-los da polícia húngara, que usava da força bruta para afastá-los dali e impedi-los de entrar no trem. Aquela cena, mais do que a cena do menino morto na beira da praia turca, me chocou profundamente. Enquanto eu corria e suava, eu chorava. E tive que abandonar o treino no meio por não conseguir suportar o horror daquelas imagens e daquela situação porque naquele momento constatei com plena certeza uma coisa que já sabia: eu também sou uma refugiada.

Aquela mulher desesperada e jogada nos trilhos do trem agarrada ao seu filho, deixou o seu país porque lá não há mais maneiras de viver dignamente, não há perspectiva, não há oportunidades. Aquela mulher síria, assim como muitas outras e muitos outros, teve que deixar a sua pátria, suas raízes, sua família, seus amigos, suas coisas pra trás por não acreditar mais num futuro possível no lugar onde passou a vida. Exatamente como eu e como outras tantas pessoas que saem do Brasil por desacreditarem e perderem totalmente as esperanças de um dia poder ter qualidade de vida por lá. E daqui de longe, vivendo como imigrante e de certa forma, refugiada, eu digo: é triste, muito triste ter que deixar nosso país por causa disso. Pra mim era desesperador não enxergar nenhum tipo de promessa de dias melhores, fosse no trabalho ou fora dele. Se eu fosse demitida da empresa onde trabalhava, dificilmente conseguiria me recolocar no mercado. E mesmo dentro da empresa não havia expectativa ou chance alguma de crescimento, pelo contrário, cada vez mais o quadro de funcionários encolhia. Na vida fora da empresa não havia tranquilidade ou segurança. Saía de casa e nunca sabia se ia voltar, jamais ficava tranquila quando estacionava meu carro na rua e vivia em constante tensão. E essa é também uma forma de viver em estado de guerra.


Por isso a imagem daquela mulher síria nos trilhos me abalou tanto ontem, porque guardadas as devidas proporções, eu vi nos olhos dela um desespero que também vive nos meus olhos. O desespero de saber que é tarde demais pra voltar pro meu país e não ter certeza alguma de que vou poder ficar aqui onde vivo agora. O sofrimento por ter deixado todos e tudo pra trás à mercê da própria sorte sem poder fazer nada pra protegê-los daquele ambiente hostil. Ao mesmo tempo, a fé em si mesmo pra seguir adiante. A superação de cada dificuldade, o encontro com pessoas-anjo e a certeza de que no final, tudo vai dar certo. Pra mim e pra mulher da Síria.





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4 comentários

  1. hoje eu não tenho o q comentar..
    evito ler o jornal daqui ou do brasil, pq so consigo pensar em qm esta la e q não tem outra escolha... e sim, tbm penso em mim aqui, não importa o tipo do visto adquirido as vezes acho q sempre seremos refugiados... pq nunca deixaremos d ser brasileiros :/

    beijos

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  2. Desculpe-me mais aqui não cabe comparação (independente da vida que vc levou no Brazil). Você machuca mais com seu artigo do que aquelas imagens terríveis circulando na internet. Pense bem... Nesse EXATO momento em que falamos, centenas de pessoas estão em pequenos barcos, no meio do Mediterrâneo, com fome, com frio, com medo, agarrados aos seus filhos, sem saber se vão chegar ao destino. Eles sim não tinham escolha! Temos que ter cuidado com que falamos mesmo que isso seja nossa opinião, as pessoas podem ter a impressão que só estamos falando do assunto porque é trend or fashion.

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    1. Oi Antonio,

      Entendo seu posicionamento.
      Mas no meu ponto de vista é só um paralelo do contexto do blog com a pauta do que estava acontecendo no mundo e não uma comparação ao pé da letra.
      No fundo todos nós somos refugiados, mas em proporções bem diferentes.

      Rezemos e façamos a nossa parte para um mundo cada vez melhor.

      Amo este blog :)

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  3. Isso é um absurdo. Totalmente sem noção. Não existe comparação aqui. Sério. Uma vergonha.

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