Histórias de garçonete

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Muito mais do que carregar pratos sujos, anotar pedidos, sorrir e servir, garçonetes (e garçons) são testemunhas oculares de muitas histórias que acontecem nas mesas de bares e restaurantes espalhados pelo mundo. Eu que o diga! Vestindo meu uniforme preto da cabeça aos pés e meu avental todas as noites, já pude presenciar cenas estranhas, íntimas, tristes e emocionantes. Ser garçonete me permite observar o comportamento humano de perto e no detalhe e em 3 meses na função já vi poucas e boas.

Logo que a noite começa numa sexta-feira, é bem comum ver casais jovens chegarem ao restaurante não só pra matarem a fome, mas também pra terem a famosa e famigerada DR. Aqui pelo menos é bem comum discutir a relação à mesa durante o jantar e mais do que isso, é comum brigar e chorar em público. Já vi homens saindo porta à fora deixando mulheres comendo e falando sozinhas no restaurante. Já vi mulheres chorando na mesa, empurrando goela à baixo uma garfada de macarrão. Já vi gente que pede um prato e no calor da discussão simplesmente esquece de comer e a comida volta pra cozinha do jeito que saiu de lá: intacta. Já presenciei casais que entram mudos e saem calados e não trocam uma palavra durante o tempo todo. Isso eu acho triste. Já vi casais estranhos, Tinder dates e muitas misturas de nacionalidades: oriental com alemão, kiwi com sul americana, brasileiro com japonesa, australiana com filipino e tantos outros matches da globalização.

Há também as famílias que aqui são geralmente grandes e numerosas, e o dia delas é normalmente sábado. Costumam chegar em bando e uma mesa de 4 lugares nunca é suficiente, é preciso juntar duas ou três pra que caiba todo mundo. Há famílias que aproveitam aqueles momentos no restaurante pra interagir, pra conversar, dar risada, desfrutar de verdade do que estão comendo e bebendo. No entanto, há outras em que todos os membros sentam à mesa, olham o cardápio, fazem seus pedidos e logo à seguir sacam do bolso ou da bolsa o smart phone pra que possam interagir com quem não está ali. Isso é muito comum e também muito triste. Pai, mãe e os filhos, cada um no seu telefone celular. Tem vezes que me pergunto se estão conversando entre si num gurpo de What’s Up entilulado Family. A comida chega, eles jantam em silêncio e logo voltam pros seus aparelhinhos.

Mas sem dúvida nenhuma o dia mais divertido e também o mais atarefado é o dia em que o time de rugby aqui de Manly joga no estádio que tem logo adiante do restaurante. Às 5 horas da tarde todas as mesas já estão reservadas pros torcedores que vão se alimentar antes da partida. Homens, mulheres, crianças, jovens e idosos, todos chegam usando as camisetas do Manly Sea Eagles, alguns com crachá de sócio pendurado no pescoço. Normalmente pedem pizza, tomam cerveja e por volta das 7 horas pagam a conta e vão pro estádio. Então, subitamente, o restaurante esvazia, a algazarra e a correria de minutos antes dão lugar à calmaria e ao silêncio. Aproveitamos enquanto o time ta trabalhando no campo pra limpar mesas, secar louças, repor o estoque de bebidas e pra descansar um pouco antes de enfrentar o segundo tempo, que é logo em seguida que o jogo termina. Aí sim, a loucura é total. Saem as mulheres, crianças e idosos, e chegam os homens. Famintos e bêbados. É bem frequente levarmos cantadas esdrúxulas nas noites de jogo, mas mais do que isso, levamos sempre muitas gorjetas.

Tem os pais solteiros ou divorciados que levam a criançada pra comer pizza e ficam sem saber como lidar com aquela baderna na mesa, tem os clientes fieis e cativos que nos conhecem pelo nome e pedem sempre as mesmas coisas, tem a turma que trabalha em construção, transporte público ou que dirige táxi e chega tarde da noite pra se alimentar, tem os jovens que vão com o dinheiro contado e ficam sempre na vontade de comer mais, tem a turma de velhinhos que chega com a garrafa de vinho debaixo do braço logo cedo e encerra a noite altas horas, sempre na maior calma.

Ser garçonete não é fácil, o trabalho é pesado, são horas à fio em pé, é cansativo. Mas a interação e o carinho que recebemos de volta à cada pizza ou prato de macarrão que servimos, mais do que o dinheiro, compensa sempre.

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