Virando a Própria Mesa – Parte 17: O lado escuro da vida e o kit de sobrevivência na selva

by - 12:10

"Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho".
(Alguém me Avisou - Maria Bethânia)

Todo mundo é feliz nas fotos do Facebook e do Instagram, inclusive e principalmente aqueles que moram em outros países muito mais desenvolvidos e legais que o Brasil. Porque afinal de contas, é muito fácil viver de bem com a vida em lugares onde não é preciso estar em constante estado de alerta e tensão, onde não existe violência de nenhum tipo e sobra respeito e organização e onde as paisagens normalmente são estonteantes.  Pois é, mas não é bem assim e só quem se atreve a fazer as malas e recomeçar a vida em outro país sabe do que eu to falando.

Meus primeiros 15 dias aqui em Sydney foram dificílimos e só agora me sinto apta pra falar abertamente e publicamente sobre o que passei. Eu travei quando cheguei aqui. Simplesmente paralisei, estanquei, estaqueei. Queria muito trabalhar, mas não conseguia pedir emprego. E não porque eu não falo inglês direito, mas porque pedir emprego batendo de porta em porta foi uma coisa que eu nunca tinha feito na vida antes, já que todas as vagas que ocupei nas empresas por onde passei foram indicações de amigos ou simplesmente caíram do céu.  Nunca tive que me vender porque geralmente já chegava pra primeira entrevista meio vendida por alguém que já me conhecia e estava me recomendando. Muito fácil. E como se não bastasse não saber pedir emprego, me vi diante de uma dúvida sobre a minha própria capacidade pra desempenhar determinadas funções. Como comentei num post anterior, parece muito simples e fácil ser garçonete ou cleaner ou arrumadeira de hotel pra quem sempre teve um trabalho que exigia mais do cérebro do que no corpo na vida passada. Acontece que não é. Travei de novo me questionando se eu seria capaz de anotar pedidos corretamente, limpar vidros do jeito certo, arrumar camas como costumava ver nos hotéis em que me hospedava. No meu primeiro dia como garçonete fui tomada de um pavor maior do que no meu primeiro dia como consultora de marketing na multinacional gigante de computadores que eu trabalhava antes. Porque eu sabia ser consultora de marketing, sabia trabalhar com propaganda, mas nunca havia carregado uma bandeja cheia de copos e pratos sujos na vida. E na beira de uma das praias mais lindas de Sydney, debaixo de um céu azul e um sol típico de inverno, eu chorei de medo por não saber se ia dar conta daquele novo desafio.

Então como eu não consegui pedir emprego e trabalhar, eu passava os dias em casa e me sentia extremamente culpada por isso. Via meu irmão, minha cunhada e os poucos amigos que já moravam aqui há mais tempo trabalhando 5, 6 dias por semana, ocupados demais, sem tempo pra nada, e me sentia péssima. Queria aquela agenda lotada pra mim também, queria me sentir útil, queria produzir o que fosse, só que eu não conseguia. Chorava trancada no banheiro, molhava o travesseiro de lágrimas quase todas as noites quando deitava pra dormir, sentia vergonha de mim mesma perante os outros, me achava a mais incompetente das pessoas. Foram minhas amigas do peito via Skype e um amigo queridíssimo via What’s Up que me salvaram de mim mesma naquela fase negra. Foi quando consegui emergir daquela angústia e seguir o conselho dos que tinham a agenda lotada pra aproveitar aquele tempo livre que eu tinha, que as coisas começaram a aparecer e a acontecer. Ainda não tenho a agenda cheia como a maioria e nem sei se quero ou se vou ter, mas pago as minhas contas e me sinto útil. Tem dias em que a culpa por passar o dia em casa de pijama enquanto todo mundo ta trabalhando na rua ainda me acomete, mas já aprendi a me livrar dela e me dou ao luxo de curtir. Afinal, é isso o que todo mundo quer, não é?

Em meio a tudo isso, eu que sempre fui uma pessoa extremamente conectada comigo mesma, acabei me perdendo de mim. Sentia como se os cabos de fibra ótica que me mantinham ligada tivessem se rompido. Eu não conseguia mais escutar minha voz interior, não conseguia ordenar e arranjar de forma lógica os meus pensamentos. Eu tava perdida na minha própria floresta interior e sem GPS. Foi terrível. Naqueles dias de perda de sinal, rezei e rezei muito pedindo pra achar o meu próprio caminho de volta. Acreditem se quiser, mas a conexão se restabeleceu numa noite de sábado que tinha tudo pra ser um desastre dada a forma como começou, mas que foi salva por um grupo de brasileiros e por um pileque na medida. No fundo de um copo de Toohies no meu pub preferido, eu voltei a me encontrar comigo mesma.

E hoje, de pijama em casa num dia de chuva e lendo o post da minha querida amiga Fê Iensen, do blogQuintal, que há 4 meses se mudou pro Canadá, percebi que nos 15 dias negros que passei também acabei consciente e inconscientemente criando um kit de sobrevivência na selva. São pequenas coisas nas quais busco refúgio e abrigo quando tenho um flashback daqueles dias difíceis pelos quais eu consegui passar. Inspirada pelo post da Fê, compartilho aqui com vocês o meu kit de sobrevivência:
  • Café (long Black)
  • Comer, Rezar, Amar – o livro
  • Meus santos e entidades que vieram comigo do Brasil: tem a Virgem Maria, Buda, Iemanjá, São Jorge, São Longuinho, entre outros
  • Meu pai e minha mãe.
  • Meu irmão, minha cunhada e o Gato: a pequena grande família
  • Meus amigos: sempre. Via Facebook, What’s Up, Skype.
  • Minha agente de intercâmbio: mais do que resolver a burocracia que me trouxe até aqui, ela é um porto seguro que tenho aqui em Sydney e uma querida amiga que o Universo me deu.
  • Minha família: naqueles momentos em que eu chorava no banheiro, lembrava do incentivo, da energia positiva e do carinho que recebi de todos os meus tios e tias, primos e primas. E nas palavras de apoio deles que retumbavam dentro de mim, encontrava a força que precisava pra enxugar as lágrimas e seguir em frente.
  • Queenscliff e o banco VIP encravado na rocha: é pra lá que eu vou quando quero silêncio, quando quero meditar, agradecer ao Universo e chorar.
  • Hotel Steyne e uma Toohies gelada
  • Meu IPod
  • Minha bicicleta
  • A vista da Harbour Bridge e da Ópera House








Veja mais Posts

1 comentários

  1. Oi, adorei suas histórias, serviram de incentivos para mim, que assim como você, desejo sair da minha área de conforto. Pode me encaminhar informações a respeito da agente de intercâmbio? Meu email é edinarabrasil@gmail.com.
    Obrigada

    ResponderExcluir