Casa grande e senzala

by - 20:50

Morando fora do Brasil há quase 3 meses, consigo ver com muito mais clareza o preconceito e a segregação que a sociedade faz em relação às pessoas. Brasileiros são julgados e agrupados por aquilo que tem, pelos bens materiais que possuem, pelo cargo que ocupam nos seus locais de trabalho, pelo montante de dinheiro que ganham por mês. Existe o pobre e o rico, a classe A e a classe C, o vassalo e o senhor do feudo. Como bem resumiu uma amiga minha que mora fora do Brasil, ainda se vive por lá nos tempos da casa grande e da senzala e uma coisa jamais se mistura com a outra. Pouco importa o caráter, a moral, a educação, a essência de uma pessoa, o que conta é seu o poder aquisitivo. É cultural do nosso povo, ta enraizada na nossa criação essa mania horrorosa de segregar. É um apartheid que vai muito além da cor da pele ou da raça.

É bem simples de ver isso na prática. Antes de vir morar fora eu trabalhava numa grande empresa multinacional como gestora de um programa de marketing. Quando dizia isso pras pessoas, todo mundo me olhava com um misto de espanto, admiração e inveja e comentava logo em seguida que eu devia ganhar muito dinheiro e ter uma vida cheia de luxos. Como gestora de um programa de marketing de uma multinacional, dificilmente eu iria me relacionar (ser amiga, namorar ou o que quer que seja) com um pedreiro, por exemplo. Não existe isso no Brasil. Porque um pedreiro é pobre e não frequenta os mesmos locais que uma profissional de marketing. E mesmo que tivesse dinheiro, ele não é suficientemente qualificado pra estar lá. Restaurantes de pedreiros não são os mesmos restaurantes de profissionais de marketing, assim como academias de ginástica de faxineiras não são as mesmas academias de ginástica de engenheiras. Os bares que um caminhoneiro frequenta jamais serão frequentados por um advogado, assim como a loja de roupas onde o executivo compra suas camisas jamais será a mesma loja onde um jardineiro irá comprar as suas. Não existe mistura de classes no Brasil nem mesmo no carnaval, a festa mais popular do país. Ricos ficam nos camarotes abastecidos de comida e bebida de grife enquanto os pobres  se espremem nas arquibancadas e se contentam com o farnel que levam de casa. Aliás, camarote é a expressão máxima da segregação e todo brasileiro acha o máximo, especialmente quando está do lado de dentro de algum. É assim ou não é?

Pois fora do Brasil, acredite, somos todos iguais. Ninguém me olha com espanto quando digo que fui gestora de marketing numa empresa multinacional e larguei tudo pra vir ser faxineira aqui. Ninguém me olha diferente quando eu digo que sou faxineira, aliás. Faxineiras aqui frequentam os mesmos bares que os executivos. Faxineiras namoram e casam com executivos, assim como pedreiros se relacionam com médicas ou casam com engenheiras de software. Presidentes de empresas gigantes tomam a mesma cerveja no mesmo bar que é frequentado pelos hidráulicos que consertam o vazamento nas pias das suas casas. Camarotes em festas no estrangeiro simplesmente não existem . Agora eu te pergunto: quantas domésticas você conhece no Brasil que se casaram médicos? Quantos padeiros você conhece que são amigos de economistas? Nenhum, né? Aliás, você que está aí lendo esse post agora, pare um segundo e pense honestamente se você se relacionaria com alguém que, teoricamente, é inferior à você, alguém que está a 2 níveis abaixo de você na pirâmide social. Não precisa me contar a resposta.

Pois o maior paradoxo de todos em relação à isso é justamente quando os brasileiros saem do Brasil pra morar em outros países onde esse tipo de separatismo não acontece. Não adianta chegar no Canadá, na Irlanda ou na Austrália dizendo que é filho de milionário brasileiro ou que era CEO da maior empresa do país porque ninguém vai dar a menor importância pra isso. No exterior você será julgado pelo seu caráter e não pela sua profissão. É muito comum que os chamados “filhinhos de papai” que nunca lavaram um copo em casa no Brasil, tenham que trabalhar como auxiliares de cozinha no exterior pra que possam sobreviver. Um downgrade absurdo, mas encarado com uma enorme naturalidade quando feito fora do Brasil. É bem frequente que as conhecidas “patricinhas ou it girls" (palavra que me dá ânsia de vômito) da sociedade brasileira que nunca arrumaram uma cama, se vejam obrigadas a lavar a privada alheia quando decidem ir morar na Califórnia. Engraçado é que nos Estados Unidos ou em qualquer país da Europa elas não acham tão ruim e depreciativo ser cleaner quanto achavam no Brasil. E o playboyzinho de outrora vai namorar a babá de agora e não vai achar vergonhoso. Por que será que quando voltam pro Brasil não mantém esse mesmo comportamento e voltam a se segregar?


Nunca vai ser possível a existência de uma sociedade igualitária enquanto a mentalidade ainda continuar sendo separatista. Simples assim.

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1 comentários

  1. Menina de ar,

    Hoje terminei de ler todo o seu blog. Esse post me emociona muito. Assim como você no início sou um profissional de marketing de uma grande empresa , que se inspira na sua história.

    Um grande abraço !
    Wesley

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