Virando a Própria Mesa – parte 16: Vivendo, limpando banheiro e aprendendo

by - 22:40

“Ô, marinheiro, marinheiro
Foi quem te ensinou a nadar
Ou foi o tombo do navio
Ou foi o balanço do mar”
(Melô do Marinheiro – Paralamas do Sucesso)

Passada a tormenta inicial dos primeiros dias aqui em Sydney, agora já me sinto menos turista e mais parte da sociedade, mais moradora de fato da cidade. Minha rotina aos poucos vai sendo construída e ao mesmo tempo em que é apavorante não saber se vou ter um trabalho quando acordo de manhã, é legal a sensação de deixar a vida me levar exatamente como canta o Zeca Pagodinho. E por enquanto, não posso reclamar porque a vida está sendo generosa comigo.

Iniciei minha carreira na Austrália como garçonete de uma pizzaria nova num bairro aqui do lado de onde moro. Eu, que nunca havia pego numa bandeja antes, aprendi por imitação como equilibrar pratos e copos na minha noite de estreia. É engraçado dizer isso, mas foi um super desafio e foi bom. Banquei a miss simpatia e recebi com um sorriso no rosto todos os clientes que chegavam, anotei pedidos, levei bronca do chefe de cozinha mau humorado porque errei um prato (foi difícil entender o sotaque mezzo australiano mezzo italiano do cliente) e acabei meu turno polindo copos e taças. Ao mesmo tempo em que foi uma novidade pra mim, foi também divertido e edificante. Aprendi não só a secar talheres corretamente, mas também a não levar nem a mim e nem aos outros tão a sério. Nunca na vida a frase “é só trabalho” fez tanto sentido como naquela noite.

Paralelo à pizzaria, fui indicada por uma ex colega de trabalho da multinacional que também mora aqui, pra assumir o posto de housekeeper (arrumadeira) numa espécie de hotel/pousada aqui bem pertinho da minha casa. O descritivo da vaga resume-se em desfazer e fazer camas, trocar toalhas de banho, tirar o pó, aspirar o chão e limpar banheiros, o que inclui é lógico, lavar o vaso sanitário. E la fui eu com uma cesta cheia de produtos, luvas de borracha e um aspirador de pó em formato de mochila limpar os quartos quando o hóspedes fazem check out. Pra muitos uma tarefa nojenta, impensável e burra. Pra mim, mais uma excelente oportunidade de aprender sobre hotelaria, sobre técnicas de limpeza mais eficientes e sobre amizade e dignidade. Num domingo de manhã fui escalada pra trabalhar e ao chegar no hotel, fui recepcionada pela minha colega da República Tcheca que eu ainda nem conhecia, com um super sorriso e um abraço tão bom que fez tudo ficar muito melhor. Aquela recepção que tive de uma menina que nunca tinha me visto na frente antes, fez total diferença e naquele instante me dei conta que trabalhar assim é muito melhor. E pensei nas tantas vezes em que fui pro escritório de mau humor e o quanto aquela energia ruim contaminava o entorno. E essa mesma colega minutos depois me ensinou com uma paciência de monge como funcionavam as coisas no hotel, me explicou tudo na maior calma se certificando de que eu estava realmente entendendo. E então eu lembrei das tantas pessoas novas que entram numa empresa e que precisam contar com a boa vontade e a paciência dos colegas pra poder aprender sobre aquele universo desconhecido. E nesse momento em que eu era a novata, eu vi o quanto é importante ter paciência e disposição pra ensinar quem tá chegando.

Pintou também a oportunidade de fazer cleaning – ou faxina no bom português – numa casa. O pagamento por hora era excelente e lá fui eu num sábado de manhã limpar uma casa que não era a minha. No começo foi estranho e a velha mentalidade casa grande/senzala que infelizmente domina a cultura e rege e a sociedade brasileira, tentou tomar conta de mim. Por alguns poucos segundos eu pensei “de publicitária à faxineira, que belo downgrade de carreira”. Mas aí eu lembrei  de uma coisa que uma amiga querida me disse outro dia: se não tem quem limpe, o mundo fica sujo. E ela tem razão. Fazendo faxina nessa casa, aprendi sobre dignidade e verdadeiramente entendi que o preconceito em relação a profissão é de um atraso sem tamanho. Pelo menos aqui na Austrália, ninguém julga ou classifica ninguém pela profissão que exerce. Todo mundo é igual, não existe esse tipo de segregação aqui por essas bandas.

Ontem comecei como garçonete numa outra pizzaria de um velho italiano muito doido, mas gente fina. Trabalho à noite e aos finais de semana, algo impensável na minha antiga vida. Aliás, várias coisas em relação ao trabalho são completamente diferentes do que eram antes
  • Não tenho um emprego fixo ainda, todos esses trabalhos que tenho são casuais
  • Ganho por hora e em dinheiro na mão
  • Por enquanto posso escolher se quero trabalhar 7 dias por semana ou apenas 6 ou 5. Também posso escolher se quero trabalhar 6, 8 ou 15 horas por dia.  
  • Ao contrário da maioria da humanidade, meu dia de folga é segunda-feira. Enquanto todo mundo sai cedo de casa pra ir trabalhar, eu estou recém acordando. Depois de um farto café da manhã, me dou ao luxo de ir pra academia às 10h.
  • Mesmo não tendo emprego fixo e trabalhando naquilo que chamam de subemprego no Brasil, faço dinheiro suficiente pra pagar as minhas despesas fixas semanais de aluguel, faxineira e supermercado.
  • Ao invés do salto alto, das roupas caras e de marcas famosas, da maquiagem que eu usava pra trabalhar antes, hoje trabalho de calça de moleton barata, tênis e de cara lavada. E vestida assim, vou direto pro bar. Ninguém me olha de cima a baixo.



Eu sei que tudo isso ainda é novidade e que talvez por essa razão esteja sendo bom. Eu penso que daqui há algum tempo eu vou sentir falta de usar meu cérebro e meus conhecimentos e experiências passadas pra ir além. Mas enquanto esse dia não chega, eu trato de aprender uma coisinha nova a cada trabalho que me oferecem porque isso tudo, no fim das contas, tem uma grande utilidade também no meu crescimento pessoal.

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5 comentários

  1. Não pensas em utilizar toda a tua experiência e conhecimento profissional de anos para tentar conseguir um emprego na tua área ou semelhante a ela?

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  2. Oi, Anonimo!

    Sim, eu penso em trabalhar na minha area aqui na Australia daqui ha algum tempo. Por enquanto, to curtindo a vida de trabalhadora casual. Mas sim, tenho planos de voltar a trabalhar com marketing por aqui. Vamos ver se vou conseguir :-)

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  3. Vai minha Keira Knightley, rumo à felicidade!!!!!!!

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  4. Olá de novo.
    Meu irmão vive na Austrália já faz 10 anos.
    começou como tu mesmo sendo formado.
    E com certeza mudou em vários aspectos a percepção da vida.
    tenha certeza que vai ser uma experiência muito boa na tua vida.

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  5. Olá de novo.
    Meu irmão vive na Austrália já faz 10 anos.
    começou como tu mesmo sendo formado.
    E com certeza mudou em vários aspectos a percepção da vida.
    tenha certeza que vai ser uma experiência muito boa na tua vida.

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