Virando a Própria Mesa – parte 15: A zona de conforto fora da zona de conforto

by - 22:03

Em 3 dias completarei 1 mês que desembarquei aqui em Sydney de mala e cuia, cheia de planos, decidida, feliz da vida como há muito não me sentia, encorajada e destemida. Continuo cheia de planos, decidida, feliz da vida, encorajada e destemida, mas não na mesma medida e em alguns aspectos, nem na mesma intensidade. Mas isso não significa que esteja arrependida, passando mal aqui e querendo voltar pro Brasil. Nada a ver.

Como bem disse um amigo meu esses dias, eu decidi movimentar um transatlântico em alto mar e uma manobra como essa não é fácil, não é simples e nem é rápida de fazer. Requer paciência, sabedoria, coragem pra mudar a rota de um navio desse jeito, exatamente como eu fiz com a minha vida. Deixei um bom emprego, uma casa que era minha, numa cidade que eu amava e onde conhecia um monte de gente e me divertia de segunda a segunda. Deixei minha família, minha estabilidade, minha segurança pra vir pro outro lado do mundo em busca de mim mesma, querendo me desafiar e testar meus limites. Sim, eu quis isso e eu continuo querendo muito. Mas confesso que não é fácil e muitas vezes tenho que refrescar minha própria memória sobre os motivos que me fizeram tomar essa decisão e chegar até aqui.

Sair da zona de conforto como eu fiz e como vejo muita gente fazendo, dói. Tudo é diferente, desde o lado de dirigir um carro numa rua até a esponja de lavar louça, passando pelo idioma, os hábitos alimentares, os trabalhos e a maneira como a sociedade se organiza. Embora tudo seja legal e incrível nessa experiência de ir descobrindo esse mundo novo aos poucos, tal qual uma criança recém saída do ventre materno, é muito comum buscarmos zonas de conforto fora da zona de conforto. E isso pode ser qualquer coisa que nos dê um pouquinho só de segurança e alento, que nos faça sentir aliviados e pertencentes à alguma coisa. Pode ser um caminho, um pub onde se vá beber toda a sexta-feira, um ônibus pra ir e voltar pra casa, uma pessoa estranha que oferece um segundo da sua atenção ou uma rotina qualquer que se repita dia após dia. Essas coisas, por menores e mais insignificantes que possam ser pros olhos das pessoas normais, são a âncora, o bote salva-vidas, a mão que se estende pra quem ainda ta se sentindo só e perdido num mar onde não sabe bem pra que lado nadar. Mas é justamente aí que mora o problema: criar uma outra zona de conforto no lugar ou na pessoa errada só pra se sentir um pouquinho mais tranquilo. Vivendo minuto sim e outro também nessa corda bamba existencial, extremamente vulnerável e desconfortável, começo a entender um monte de coisas que até então não me faziam o menor sentido. Álcool, drogas e remédios são alguns bons exemplos de paraísos artificiais pra quem tá vivendo um momento desconhecido.

Ao mesmo tempo, ter pulado fora da minha zona de conforto me aguçou os sentidos mais ainda e sinto como se tivesse muito mais sensibilidade, como se estivesse atenta e muito mais receptiva pra encarar o que vai aparecendo no meu caminho, sejam situações ou pessoas. As coisas me tocam de uma maneira diferente, meus olhos parecem muito mais abertos pra tudo e pra todos. É como se uma camada da minha pele tivesse sido removida e eu pudesse sentir as coisas numa intensidade maior. E assim eu vou aprendendo, vou me encontrando, vou me moldando pra ser quem eu quero ser.

Sair da zona de conforto não é nada fácil e dá muito medo, mas é libertador, é surpreendente, é desafiante, é gratificante. E isso pra mim é viver.





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2 comentários

  1. Certamente vou repensar alguns itens na minha vida.......

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  2. Certamente vou repensar alguns itens na minha vida.......

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