Um cara valente

by - 12:52

“...Esse humor
É coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão.”
(Cara Valente – Maria Rita)

Seis meses atrás conheci despretensiosamente um cara numa festa. Lindo, tinha uma marra toda dele, mal olhava pros lados. Não sei até hoje como acabamos ficando juntos naquela noite e muito menos como saímos no dia seguinte. Mas descobri um pouco depois que por trás daquela atitude de skatista contra cultura, habitava um dos caras mais doces que felizmente ainda existem nesse sistema solar. Um sujeito puro, limpo, honesto e muito mais educado e gentil do que um bando de mocinhos de camisa polo de marca famosa que andam por aí em seus carrões importados. Ele anda de bike e pouco liga pra roupa que veste. 

Nos primeiros minutos de conversa que tivemos naquela noite falei pra ele que dali a pouco iria de mala e cuia pra Austrália, querendo dizer que não era uma boa nos envolvermos. Mas, sabe como é. Essas coisas do coração perdem totalmente a razão de uma hora pra outra sem nenhum controle, por mais que se tente puxar o freio de mão. E como diz aquela famosa canção do Legião Urbana, e mesmo com tudo diferente veio mesmo de repente uma vontade de se ver. E assim foi. Nos encontrávamos esporadicamente, nos falávamos todos os dias e tentávamos manter uma distância digamos regulamentar até o final do ano passado. Mas então 2015 começou e aquilo que era pra ser só um caso rápido e sem compromisso, acabou virando uma coisa mais séria.

O cara marrento, skatista, surfista e com jeito rebelde típico de um aquariano como ele, tinha uma filhinha linda cujo nome ele trazia tatuado em letras garrafais no meio do peito. Poucas vezes vi um pai tão apaixonado por uma filha. Embora não morassem na mesma cidade, sempre que podia ele viajava pra visitar a menina e exibia todo orgulhoso as fotos dela no celular. Ela tinha menos de 1 aninho e antes mesmo de aprender a caminhar, foi diagnosticada com leucemia. Ficou 9 meses no hospital, dos quais ele esteve integralmente presente, fez transplante de medula e se recuperou pra começar então a viver. E ele tinha um sonho de que um dia ela viria pra Porto Alegre morar com ele e fazia planos, imaginava tudo o que iria ensinar pra ela e o quanto seriam felizes. Eu achava isso lindo especialmente porque era verdadeiro demais.

E então quando nos conhecemos há 6 meses, ele recém tava voltando à vida e à cidade depois de ter acompanhado de perto o tratamento da menina. Não fazia planos e simplesmente se permitiu viver e tentar recuperar o tempo que passou dentro de um hospital vendo a própria filha perdendo os poucos cabelos que tinha, aprendendo a caminhar com um soro conectado ao pequeno bracinho. Fomos nos aproximando e nos envolvendo cada vez mais, sem pensar que o tempo escoava e dali a pouco eu iria partir. Até que no final de março veio a notícia triste: células cancerígenas tinham aparecido na menina novamente e lá foi ela, agora com 2 aninhos, pro hospital. E ele viu o sonho que tanto acalentava virar pesadelo de uma hora pra outra e se viu de novo dentro daquele mesmo hospital, passando por todo aquele calvário mais uma vez. Acompanhei muito de pertinho e me apaixonei por ele mais ainda. Porque ele é um cara puro, sensível, preocupado, apaixonado por aquela criança e genuinamente disposto a dar sua própria vida por ela se isso fosse possível. Ao longo dessa minha existência, já vi caras abandonarem seus próprios filhos por muito menos do que uma doença e passei a admirar ele mais e mais.

Na quarta-feira a noite nos despedimos porque na quinta ele voaria pra cidade onde a menina estava internada e não nos veríamos mais. E deixei como lembrança minha um orquídea linda que havia sido da minha avó com a promessa de que ele cuidaria dela. Hoje pela manhã ele me disse que a menina estava muito mal, em coma induzido, cheia de tubos pelo seu corpinho miúdo, inchada de tanta medicação e que ver ela naquele estado era desesperador. No meio da tarde veio a notícia triste: aquela menina de olhos escuros como os do pai, aquela pequena guerreira, havia partido. A vida curta daquele pequeno ser havia chegado ao fim. Ele, é claro, desmoronou, mas aceitou a morte porque não achava justo ver a menina que tanto amava sofrendo daquele jeito.

Ele é um cara valente, forte, corajoso, da paz, especial, transparente, incapaz de fazer mal pra ninguém. No dia que me despedi dele e que dei a orquídea que eu cuidava com tanto amor porque havia sido da minha avó, ele me disse: “A melhor lembrança tua que tu pode me deixar, é um ser vivo. Vou cuidar dessa planta com todo o meu amor”.

E eu acredito. 



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1 comentários

  1. Conheço esse rapaz... meu brother de anos.... cuja admiração é tão grande quanto a tua...
    Um ser de muita luz... de uma simplicidade... e um coração que nem sei como consegue carregar... simplicidade é o nome dele.... extraordinariamente maravilhoso. .. cujas palavras me faltam pra definir tamanha admiração. . Carinho e respeito que tenho por esse mostro .. doce e gentil como mencionou! Só quem o conhece sabe o privilégio de ter esse cara como brother.... lindo texto.. teu carinho para com ele e todo entorno com a situação fica explícito nas tuas palavras o cuidado e o carinho que teve ao falar dele e da mel... Parabéns pelo texto! Chorei.

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