Virando a Própria Mesa – parte 9: A hora mais escura

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“Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez
Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Medo... que dá medo do medo que dá”
(Miedo – Lenine)

O calendário preso na porta da minha geladeira avisa que faltam 69 dias pro embarque. Muitos me perguntam se eu to nervosa, mas isso não aconteceu ainda e acredito que o frio na barriga vai começar quando faltarem 30 dias, depois quando faltarem 15 e por fim quando faltarem apenas 7.

Por enquanto o que sinto é um pouco de medo, que deve aumentar à medida em que a data da partida se aproxima. Sim, to com medo porque não vai ser uma mudança fácil. Ou alguém pensa que deixar o que se tem pra trás e atravessar o planeta pra recomeçar numa terra diferente é simples? É estranho dizer isso, mas eu não crio nenhuma boa expectativa sobre essa mudança e to me preparando pra viver o pior e pra suportar tudo de ruim que poderá acontecer. Não tenho nenhuma ilusão de que minha vida  vai ser um mar de rosas porque não vai, aliás, será exatamente o contrário (e é isso o que eu busco). Engana-se quem pensa que eu to deixando o Brasil, a minha casa, minha família e meus amigos porque minha vida aqui é ruim. Com exceção da má administração que andam fazendo do nosso país e das consequências que isso traz pra quem vive aqui (insegurança, falta de estrutura, altos impostos, roubalheira descarada e impune, etc.), não posso reclamar da vida que levo. Moro num apartamento legal, tenho meu carro, minha família ta aqui do lado, meus amigos tão sempre por perto, faço tudo o que eu quero, tenho um emprego bom. Analisando as coisas sob essa perspectiva eu não teria motivo algum pra ir embora daqui onde minha vida é tão fácil e tão incrivelmente feliz.

Mas eu preciso de mais. Essa sensação de ter a vida fácil, de estar tudo dominado e nada por fazer, inacreditavelmente me incomoda um pouco. Tô longe de ser o tipo de pessoa acomodada, que se contenta com uma vidinha medíocre e com uma rotina sem nenhuma novidade. Não consigo viver assim por muito tempo. Preciso de um desafio grande, preciso testar meus limites pra saber até onde eu consigo chegar. Preciso estar longe de tudo e de todos pra me tornar a pessoa que eu ainda quero ser, por mais estranho que isso possa soar. Só que isso dá um certo medo e acho que é normal. Nesse momento a decisão começa a ser frequentemente questionada – será que vou fazer a coisa certa? – e ao mesmo tempo não pode ser revogada.


Ta quase chegando a hora, o grande dia tá logo ali. Com medo ou sem medo, roendo as unhas de ansiedade ou calma como um monge, eu vou partir. Porque todos esses sentimentos e todo esse desconhecido também são parte do plano que sonhei pra mim. Prefiro arriscar e morrer de medo do que jamais tentar.



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