Cinquenta Tons de... zzzzzzzz

by - 23:24

Despida de qualquer juízo de valor, pré-conceito e inclinação pra ser tendenciosa e crítica, fui ao cinema assistir Cinquenta Tons de Cinza. Numa sessão lotada de casais e grupinhos de mulheres curiosas, eu era a única fêmea desacompanhada, mas isso não vem ao caso e nem é relevante.

Não li nenhum dos três livros escritos por E.L.James por duas razões: primeiro porque ando na contramão do mainstream, sou do contra. Todo mundo tá lendo? Ótimo! Essa é a melhor razão pra que eu não leia. Segundo porque a trama – mocinha virgem se apaixona por homem rico, gostoso e sadomasoquista – não me convenceu. Afinal, tem sacanagem da boa ou não? Levando em conta esse enredo à la Princesas da Disney, achei difícil. Porém, confesso que fiquei um pouco curiosa e achei ótimo quando anunciaram que haveria o filme. Isso significaria que eu não precisaria ler as mil páginas de bobageiras e poderia abreviar caminho indo ao cinema. E foi o que eu fiz.

Dificilmente tenho sono numa sessão de cinema e olha que ja fui ver filme iraniano numa segunda-feira a noite e aguentei firme. Na metade da fita de Cinquenta Tons de Cinza comecei a bocejar e a olhar o celular pra saber se faltava muito pra terminar. O enredo é previsível demais, muito asséptico e patético na maioria das vezes e claro, totalmente inverossímil. Mocinha universitária virgem e inocente? Mocinho lindo, podre de rico e tarado? Ah, tá, conta outra! Acho que nem nos clássicos ditos apimentados da década de 1980 que minha mãe e minhas tias liam nas tardes de verão na praia o script era tão pobrinho como o de Cinquenta Tons de Cinza.

Na minha modesta opinião, E.L.James peca pelo excesso de bondade, ingenuidade e limpeza. Falta sacanagem no filme, falta devassidão, perversão e um pouco de sujeira. O play room do protagonista é mais limpo do que uma sala de cirurgia do Sírio Libanês ou do Albert Einstein. O piano de cauda estrategicamente posicionado no centro da imensa sala de estar do apartamento do mocinho é de uma cafonice non sense e incapaz de excitar uma freira carmelita. Ora, quem é que toca piano depois de uma noite de selvageria sadomasô, como supõe o roteiro? Como bem escreveu Barbara Gancia na crítica que fez ao filme na sua coluna da Folha de São Paulo, a sensação que sem tem diante da tela do cinema é de se estar assistindo a um comercial de perfume francês. Sobra romance e falta sacanagem.

Eu classificaria Cinquenta Tons de Cinza na categoria ficção científica dada a quantidade de surrealidade apresentada no filme e fico imaginando que os três livros sejam a Bíblia da falta de noção. Christian Grey, caso ninguém tenha percebido, é onipresente e se materializa em todos os lugares o tempo inteiro. E mais: sabe fazer uma trança. Isso mesmo, o cara sabe fazer uma trança no cabelo da moça, que numa cena aparece de maria chiquinha (!!!!!!!). Eu que sou mulher e tenho 38 anos nunca na vida aprendi a trançar o meu cabelo ou o cabelo alheio. Sem falar na quantidade de carros na garagem, no helicóptero e no planador que ele tem. É uma sucessão de exageros que ultrapassa os limites do bom senso.

Senti falta do apelo principal da história e aposto, o motivo que levou um batalhão de gente ao cinema: a putaria. O sadomasoquismo. A sacanagem. Se aquilo que foi apresentado na tela era o máximo da lascívia e da equação submissão/dominação, que vergonha! Saí do cinema com a sensação de quem vai a um restaurante e fica com fome.

O filme termina de uma maneira meio abrupta e que sugere uma continuação. Dizem que ainda seremos brindados com os dois outros roteiros da saga e que essa historinha pra boi dormir não se estanca por aqui. Sinto muito, Hollywood, mas das próximas vezes não vou pagar pra ver. E nem pra ler.



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