O beijo negado e o tacape: uma visão neandertal do homem moderno

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Tá lá, na capa do jornal de hoje, 30 de dezembro de 2014: uma jovem nega um beijo pra um sujeito e leva uma garrafada na cabeça. Tudo isso numa festa de playba como me refiro a esses locais supostamente luxuosos e de público selecionado, mas que – desculpem se vou generalizar – reunem a banda podre da sociedade. Gente rica de bens materiais, mas pobres em educação e respeito, embora oriundas das melhores e mais caras escolas da cidade. Normalmente um povinho mimado que ostenta roupa de marca, carro do ano, celular de última geração, mas que não sabe receber um não na cara. Se acham reis e portanto, não podem ser contrariados. Nojo é o que eu sinto dessa turma e voltarei a falar dela em um post a parte.

Tirando o foco do gênero pra abordar o tema central da questão: um beijo negado e a violência contra a mulher. Num domingo desses saí com uma amiga e fomos numa festa apenas com a intenção de dançar e nos divertir. Não tínhamos o intuito de ficar com ninguém. Por ser domingo, a festa tinha muito mais homens do que mulheres e numa determinada hora, começamos a ser cantadas por cada um dos caras que estavam no local. Delicadamente e educadamente dispensamos um por um. Acontece que minha amiga foi embora e eu fiquei sozinha porque a música tava realmente boa demais e eu queria dançar. Foi a senha pro ataque em bando. De novo, dispensei educadamente aqueles caras que vinham me abordar com cantadas datadas. Alguns insistiam e eu disse que não tava afim de ficar com ninguém, mas aquela minha negativa sem nenhum motivo fortemente justificável, parece que não tava sendo suficiente. Foi então que eu enchi o saco, virei pra um deles e falei: "sabe por que eu não quero ficar contigo? Porque eu gosto de mulher. É, assim como tu, também gosto de mina". Foi a desculpa e a resposta mais cretina que eu encontrei pra me livrar daquele incômodo. Porque se eu dissesse que tinha namorado, que era casada, ainda assim ele não ia se contentar e ia continuar insistindo.

O sujeito que deu a garrafada na cabeça da menina depois de ter um beijo negado, me lembrou aqueles neandertais retratados no filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrik. Era praxe na época das cavernas, quando a espécie humana mal andava ereta, não tinha luz elétrica e recém tava aprendendo a fazer fogo esfregando dois gravetinhos, que o macho abatesse a fêmea com um golpe de tacape na cabeça e a arrastasse inconsciente pra sua gruta afim de torná-la sua esposa. Era assim que os relacionamentos começavam a muito mais de 2000 anos atrás e pelo visto até essa tendência vintage está de volta com toda a força no mercado. Só trocamos o tacape pela garrafa e a caverna pela boate porque de resto o comportamento é exatamente o mesmo. Não vou entrar no mérito do feminismo e do machismo pra ilustrar a atitude do cara porque acho ambos os assuntos de uma chatice tremenda, mas acho incompreensível esse tipo de conduta masculina em pleno ano de 2015. Por que é que os caras acham que toda mulher sozinha numa festa tá afim de rolo com alguém e por que é que não sabem simplesmente receber um não assim como estão acostumados a dar?


Fica a pergunta, a indignação, a vergonha. Só resta a esperança de que isso mude um dia.




*Pra quem quiser aprofundar um pouco a leitura e tentar achar uma explicação pra esse tipo de comportamento, pro machismo e pra origem da sociedade patriarcal, recomendo esse link que é pro livro A Cama na Varanda, da Regina Navarro Lins. Baseada em fatos históricos, ela explica direitinho essa questão logo nas primeiras páginas.

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