Virando a Própria Mesa – parte 5: Liberdade, Igualdade, Fraternidade

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Uma das coisas que mais chama a minha atenção na Austrália e em outros países realmente desenvolvidos, é a relação que o povo tem com o trabalho e com o status que um cargo ou uma profissão nesse caso não representam. O que você faz pra ganhar a vida não define quem você é e não te qualifica melhor ou pior do que ninguém. É a tal igualdade social que o brasileiro tanto diz que quer, mas pouco faz pra tê-la. Porque igualdade social também é uma questão de mentalidade tanto quanto uma questão financeira e econômica.

Ontem a noite estava assistindo a uma entrevista do ator Paulo Gustavo no programa da Marília Gabriela, no canal GNT e num determinado momento ele comentou que sua mãe trabalhou como porteira do próprio prédio pra que pudesse sustentar a família. Naquela época, o ator disse que sentia vergonha da mãe ao cruzar com ela diariamente atrás da mesa na portaria do edifício onde moravam. Esse tipo de pensamento é o que nunca vai tirar do Brasil o título de um dos países mais desiguais do mundo. Porque é vergonhoso ser porteiro de prédio, ser faxineira, lixeiro, pedreiro e por aí vai. Profissões que no primeiro mundo são respeitadas e indispensáveis como qualquer outra, aqui no projeto de América tupiniquim é sub emprego e portanto, vexaminoso.

Quando eu estava na Austrália, conheci um cara muito gente boa com quem saí ao longo de todo o tempo em que estive por lá, e ele era arborista. Seu trabalho consistia em podar e transplantar grandes árvores, entre outras coisas. Ao contar o fato pra muitos amigos brasileiros, a maioria ria e dizia que eu namorava com um jardineiro e que se ele morasse aqui, seria morador de uma vila e portanto, um desqualificado. O que as pessoas esquecem é que temos aqui muitos empresários, políticos, gente da alta sociedade, que é desonesta, corrupta, bandida. E moram em mansões, dirigem carros importados e viajam de classe executiva. Viu só como o trabalho, o cargo e os bens materiais não definem o caráter de ninguém?


Todo mundo me pergunta o que eu vou fazer em Sydney pra ganhar a vida enquanto estudo. Há uma grande preocupação alheia em saber se vou conseguir trabalhar na minha área e uma surpresa quando digo que não faço a menor questão de seguir a carreira que eu tenho aqui lá do outro lado do planeta. Tenho inúmeras ressalvas quanto à profissão que escolhi seguir e confesso publicamente que ela não me satisfaz. Por isso, a maneira como vou fazer dinheiro na Austrália pouco me interessa. Se tiver que ser garçonete, vou ser. Se tiver que ser vendedora de loja, vou ser. Se tiver que ser caixa no supermercado, vou ser. Se tiver que ser faxineira, depiladora, manicure, babá, vou ser. O que está em jogo pra mim é a minha sobrevivência, a minha dignidade e principalmente, a minha felicidade. 


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