Sobre viver

by - 06:19

“...hoje o tempo voa, amor
E escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Que não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo o que há pra viver
Vamos nos permitir...”
(Tempos Modernos – Lulu Santos)

Foi assim: o primeiro jogo da Copa do Mundo acontecia na cidade naquela tarde. Enquanto franceses e hondurenhos se enfrentavam no gramado do estádio Beira Rio, eu bebia e ria com um monte de amigos num bar, alheia à partida que era transmitida pela TV de tela plana. Era domingo, excepcionalmente fazia calor e a capital começava a ser invadida pelos primeiros estrangeiros que chegavam aqui por essas bandas pra assistir aos jogos do mundial.

Por volta da meia-noite talvez, resolvemos mudar de bar e saímos todos andando pelas ruas movimentadas de alegria e festa. Franceses vestidos de Obelix enchiam a cara de cerveja num boteco de esquina pra celebrar a vitória da sua seleção; hondurenhos dançavam na calçada abraçados a canadenses e brasileiros. Chegando à porta do pub que escolhemos pra terminar a noite, fomos momentaneamente impedidos de entrar porque o lugar estava cheio. Tudo bem, podemos esperar um pouco na calçada, afinal de contas, o papo ta animado. Foi quando meus olhos colidiram com os dele. Nunca mais vou esquecer daquela cena e do sorriso que ele me deu.

Os dois puxaram papo com a gente, fizemos as devidas apresentações e acabamos entrando todos juntos no bar. Coincidentemente, sentamos na mesma mesa, lado a lado. Ele era o mais quieto de todos e aqueles seus olhos azuis combinavam com a camiseta da seleção que ele usava e contrastavam com a cor dos seus cabelos. Ele era tímido, quase não falava. Só me olhava e sorria.

Ficamos naquela noite. E na noite seguinte. E no dia depois ele foi embora, precisava seguir viagem pra acompanhar os jogos da sua seleção. Continuamos em contato diariamente pelas redes sociais; ele me contava por onde andava, sobre as coisas que estava vendo, pessoas que conhecia pelo meio do caminho. E numa dessas trocas de mensagens ele disse que queria voltar pra cá depois que terminasse a Copa do Mundo pra me ver mais uma vez antes de voltar pro seu país. Inacreditável, surreal, quase um sonho. Achei que a promessa de uma nova estadia no pampa gaúcho iria se esfarelar com o tempo. Porque você sabe como funcionam essas coisas, né? Amanhã eu te ligo e o telefone nunca toca. Outro dia a gente se vê e o tal dia nunca chega. Acreditar que um estrangeiro iria percorrer o caminho de volta pro sul do sul do país só pra me ver soou como uma piada de mau gosto naquele instante. Não acreditei, é lógico. Ainda bem que me enganei.

Foi assim: numa manhã ensolarada e fria de uma sexta-feira ele cumpriu a promessa e desembarcou aqui depois de horas e mais horas de viagem, mais de 30 dias depois daquele encontro na porta do pub. Vi de novo seus olhos azul piscina, seus cabelos amarelo sol e seu corpo de arco-íris. A mochila displicente que ele carregava nas costas pesava de saudades e histórias. Não era um sonho. Ou era e eu é que não quis acordar. Achei que ele ficaria por aqui apenas uma meia dúzia de dias e de novo me enganei.

Já se vai quase 1 mês desde que ele chegou e nesse tempo todo tenho sido feliz 24 horas por dia. Talvez pra alguns possa parecer uma felicidade artificial, afinal, a gente sabe desde o começo que isso é temporário, tem prazo de validade e não falta muito pra acabar. E eu poderia ter vivido esse tempo todo à espreita da derradeira despedida, poderia ter me economizado pra não sofrer depois que ele for embora. Mas de que iria adiantar? Não dizem os sábios que a vida é feita de emoções e histórias, e que devemos viver com intensidade as coisas boas que nos acontecem como se não houvesse amanhã? Pois resolvi seguir todos os conselhos de todos os filósofos e me dei uma chance de viver esse romance na sua plenitude, não importa que ele esteja chegando ao final e não vá ter continuidade. Talvez até a gente nunca mais se veja na vida.

Então foi assim: decidi viver o hoje. Porque o ontem já passou e o amanhã talvez nem chegue.






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1 comentários

  1. Lu
    nada acontece por acaso nessa vida, e então eu te dou a total razão em viver agora, em aproveitar cada minuto, em se permitir ser feliz e pensar que isso não vai acabar, não no teu coração, pode acabar por outros motivos da vida, mas esse sentimento será sempre lembrado da forma mais linda que se tem.

    Adorei o post, adorei a história, e torço pela felicidade e pela paixão (ou sei lá o que é).
    VIVA, TE PERMITE!!

    Essa é a vida que temos.

    Um beijo, com carinho,
    Bina de Andrade

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