Depois daquele beijo...

by - 06:35

... vieram muitos outros numa tarde inteira de domingo, que virou noite, mas que não amanheceu.

E então teve uma noite de quinta-feira entorpecida por vinho tinto e confissões perigosas. Teve manhã de sexta. E nova noite de domingo, que raiou com o sol numa manhã de segunda.

E entre noites de quinta, tardes de domingo, algumas sessões extras em quarta-feiras e sábados, um tempo maior do que o previsto se passou. Ninguém sabe explicar bem porquê, embora para alguns a resposta seja bastante óbvia e esteja estampada na cara. Mas não, não é isso. Pelo menos não deveria ser; não estava programado, não fazia parte do contrato, do script, do regulamento. No strings attached, como dizem os gringos. Entretanto, algumas fronteiras importantes foram cruzadas quase por instinto, muito sem querer.  Ou será então que havia ali algum sentimento envolvido que ninguém quis admitir? Difícil saber porque entre tantas noites, tardes e manhãs, pouco sobre isso foi discutido. Aliás, nada era falado nem antes, nem durante e nem depois. As coisas apenas boiavam na superfície da pele amparadas por uma química indiscutivelmente forte para se dissolverem pelo ar logo em seguida. Todo o resto era velado e sobrevivia apenas na esfera do pensamento, da suposição, da imaginação fértil. E mesmo assim, tudo funcionava muito bem.

Não se sabe precisar exatamente quando uma coisa que era boa se tornou estranha. Foi da noite pro dia? Ou terá sido do dia pra noite? Não importa. Ao perceberem que haviam ultrapassado limites pré-estabelecidos, acho que ambos tentaram se proteger de si mesmos na vã ilusão de não se machucarem outra vez, afinal de contas, aquilo poderia virar um caso sério e todo mundo aqui sabe bem as consequências de um caso sério.  Na ânsia de se resguardarem, acabaram se transformando em dois ouriços do mar que se espetavam o tempo inteiro. Ergueram-se entre eles cercas elétricas, campos magnéticos, muros impenetráveis que sem que percebessem, acabou os afastando. Uma pena.

Deixaram algumas promessas e planos pra trás em nome de nada. E poderiam ter sido felizes como de fato estavam sendo. Poderiam ter ido pra praia no próximo feriado, ter jantado naquele bistrô, ter visto o sol nascer lá no alto daquele prédio, ter curtido aquele show da banda que  gostavam. Mas não. Ao invés disso resolveram cortar o mal pela raíz; abreviar o caminho bem na parte mais gostosa da viagem; jogar a toalha muito antes de ter soado o apito final. Perderam de W.O pra eles mesmos, tolos que são.


E depois de um dia inteiro de sábado que era a promessa de um domingo; depois de um beijo no meio da rua, parece que o fim havia chegado.  Sem anúncio ou aviso prévio, num silêncio absoluto e constrangedor que costuma ser clássico em momentos como esse, terminaram da mesma forma que começaram: depois daquele beijo.



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