All that she wants

by - 06:44

O texto que você vai ler à seguir foi baseado numa história real. Isso aconteceu; eu estava no "local do crime", eu vi e ouvi tudo à respeito. E esse post tem uma trilha sonora que segundo relatos que recebi da pessoa que viveu tudo isso, foi o que embalou a história no seu desenrolar. Então recomendo que leia ouvindo essa música

Era só uma noite de sábado como outra qualquer, nada de extraordinário estava programado. Mesmo sendo um dia de folga do trabalho, havia acordado cedo por conta de uma série de coisas que precisava resolver e combinou de ir a um bar tomar uma cerveja com algumas amigas mais tarde. Não tinha planos de esticar a noite em alguma festa ou pretensões de encontrar alguém especial. Só queria mesmo bater um papo e se divertir um pouco.

Chegou ao Babilônia perto das 21h acompanhada de duas amigas e tão logo pisou no bar, viu um sujeito deveras interessante sentado com alguns outros caras numa mesa na calçada. Olhou. Recebeu um olhar de volta de quem estava pensando a mesma coisa a seu respeito. Uma das amigas fez um comentário sobre o quão estiloso e gato era o tal sujeito. Sentaram-se numa mesa, pediram uma cerveja, brindaram a amizade e deu-se início à noite. Jamais poderia imaginar, nem mesmo no seu mais louco devaneio, o que aconteceria no desdobrar das horas que passavam.

Foi até a parte externa do bar fumar um cigarro. O tal sujeito então colou seu olhar sobre ela deixando-a diversas vezes constrangida. Não sabia sustentar a encarada que estava levando, era envergonhada demais pra esse tipo de coisa. Preferia ser discreta, olhar de canto. Pediu o cinzeiro, ele lhe estendeu enquanto a scanneava de cima a baixo. Ficou vermelha na hora e uma gota de suor escorreu por entre o seu sutiã preto despertando um desejo que estava, digamos, adormecido por razões nobres que não vem ao caso.

Perto da meia-noite resolveram ir embora. Levantaram as três da mesa, pagaram a conta e quando estavam chegando à parte externa do Babilônia, encontraram uma amiga que havia acabado de chegar ao local. Decidiram ficar mais um pouco e beber a saideira com ela. De novo ela ficou frente a frente com o sujeito interessante, aquele mesmo que avistou logo que chegou no bar algumas horas antes. E ele, mais uma vez, não desgrudou seus olhos de cima dela até que num repente chamou-a para conversar. “Ih, pronto”, ela falou pras amigas enquanto ia ao encontro do cara. Agora sim, estavam olho no olho, não tinha como escapar.
- Tu deve ter percebido que passei a noite inteira te olhando – ele disse
- ...
- Qual teu nome?
- Marina*. E o teu?
- Marcello, com dois "eles"*
- Muito prazer então, Marcello com dois "eles". Legal te conhecer, mas já to indo embora.
- Ta indo embora? Já? Mas por que?
- To cansada, com dor de cabeça.
- Bebeu demais?
- Não, não é isso. Sei lá, acho que é sinusite, sabe?
- Sei. Pô, não vai embora! Fica um pouco mais.
- Desculpa, mas não vai dar.

O bar lotado pulsava toda a energia contida de homens e mulheres que estavam ali à procura de algo mais do que cerveja e bate papo. Era nitidamente visível mesmo através de maquiagens pesadas e caras de paisagens, que todo mundo pretendia sair dali acompanhado. Todo mundo queria todo mundo, mas pouquíssimos foram capazes de tomar uma atitude que fosse de fato mudar o rumo daquela noite de sábado. Menos ele.

Num rompante, num reflexo condicionado de quem havia talvez bebido além da conta, ele enlaçou a sua cintura com firmeza, grudando seu corpo no dela. Colocou a mão por entre os seus cabelos e muito decidido como quem sabia exatamente o que estava fazendo, beijou sua boca. O bar parou pra assistir a cena cinematográfica, alguns inclusive pensaram que eles já se conheciam anteriormente. Seu corpo entrara em combustão e o suor que antes escorria apenas pela fresta do seu sutiã, brotava da sua testa, das suas pernas, da sua alma. Sentia um calor inexplicável. Afastaram-se alguns quantos segundos depois.

- Eu não poderia te deixar ir embora sem te beijar. E eu gostei. Como eu faço pra te ver de novo?
- Me dá teu número de telefone, eu ligo qualquer dia desses.
- Liga mesmo?
- Sim.
- Anota então.
- Ok, anotado.
- Me manda uma mensagem quando chegar em casa, assim vou saber que tu tá bem?
- Combinado. Tchau, Marcello com dois "eles".

Chegou em casa e fumou um cigarro na janela da cozinha enquanto olhava pro celular pensando se escrevia ou não uma mensagem pro cara que minutos atrás acabara de lhe dar um beijo na boca. Digitou o texto e enviou.

O domingo amanheceu debaixo de chuva na cidade e ela enrolou na cama até seu corpo dolorido lhe expulsar dali. Pegou o celular, havia uma mensagem dele perguntando se havia melhorado da dor de cabeça. Ela respondeu que sim. Ele disse que ainda estava debaixo do edredon, sozinho, lermbrando da noite anterior. Ela desconversou e digitou de volta uma mensagem qualquer. Ele, em mais um rompante, convidou-a pra ir até a sua casa. Ela disse que não ia, afinal, mal se conheciam. Ele disse “ok, então eu vou pra tua. Me manda o endereço”. Ela disse “não”. Ele disse “deixa de ser boba, vem. Nâo gostou de ontem?” Ela disse “adorei”. Ele digitou “então vem”. Ela parou e pensou: afinal de contas, o que perderia se fosse? Não era isso o que ela queria, mas estava evitando por motivos, digamos, nobres que não vem ao caso? Sim, era aquilo mesmo o que ela queria. Mas e o que ele iria pensar à seu respeito? Que era uma mulher fácil, dessas que dão logo no primeiro encontro? E daí que ele pensasse isso? Ela sabia que não era dessas e era isso o que importava. Que se dane o que pensam os outros e na maioria das vezes os outros nem pensam nada como se imagina por aí. “Me manda o endereço, to indo”. Consciente da sua decisão e desprovida de qualquer ilusão, plano, delírio ou medo, tomou um banho, se arrumou e foi.

O que veio à seguir, você pode facilmente imaginar, porém eu não tenho autorização da protagonista dessa história pra contar os detalhes. Mas ela sugeriu que eu encerrasse esse conto da vida real com uma passagem de um livro da Danuza Leão chamado Quase Tudo, que resume o seu sentimento sobre a história que viveu naquela noite comum de sábado, que se transformou num domingo maravilhoso de chuva:


"Quando acordei, às duas da tarde, mal acreditei no que tinha acontecido. Voltei ao mesmo café, pedi um vinho e pensei: quando um homem deseja muito uma mulher, esse desejo pode despertar o desejo dela. E mais: quando isso acontece, não há razão nenhuma para que os dois resistam à pulsão da vida. Pensei também que poucos homens compreendem as mulheres; não sabem que muitas preferem ser desejadas a ser amadas. Na noite anterior eu me esqueci de quem era e nunca fui tão eu mesma".

*Para preservar a identidade dos protagonistas dessa história, troquei seus nomes por outros fictícios.

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2 comentários

  1. Aline Ulrich Teixeira9 de maio de 2014 03:24

    Yuhooo! A estória da Danuza Leão aconteceu décadas atrás em Paris, se não me engano, e esta em Poá há uma semana, o que só comprova que a essência de homens e mulheres é a mesma através do tempo e do espaço. E viva a pulsão de vida!!!

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