As cinzas da quarta-feira

by - 00:14

Abri a porta do apartamento e percebi no meio do chão um envelope pardo. Não lembro de ter deixado cair nenhum envelope. Fui ver do que se tratava. No campo destinatário estava escrito “para Ana, só Ana” juntamente com as informações do meu endereço. No verso, apenas o estranho remetente: o homem do chapéu Panamá.

Apesar de claramente e infelizmente não se endereçar a mim, achei linda aquela carta, uma prova de amor sem precedentes. Como dizem por aí, em tempos de amores líquidos e virtuais, onde relacionamentos começam e terminam nas telas dos computadores e smartphones, uma carta escrita à mão e postada no correio como antigamente é uma prova de amor irrefutável.

Não fazia ideia de quem era a tal Ana, só Ana, muito menos o misterioso homem do chapéu Panamá. Mas claro que minha curiosidade de mulher aquariana estava aguçada e usando uma técnica infalível de abertura de envelopes, me pus no chão da sala pra ler o conteúdo daquela carta. Difícil explicar o que eu senti ao encontrar aquelas palavras, mas pude ver naqueles garranchos o amor que tanto doía no peito daquele sujeito de chapéu Panamá. Não era apenas uma carta de amor, era um poema lindo e emocionante.

Com vocês, a carta.

Ele sobre ela

O que primeiro reparei quando a vi foram seus olhos. Eram da cor do cacau e tinham um brilho próprio e uma intensidade que nunca antes havia visto em um olhar. Eram olhos vivos e contavam uma história, a sua história. Tão logo encontraram os meus, aqueles olhos atravessaram minhas pupilas e minhas retinas e miraram minha alma. Acertaram em cheio. Seus olhos me buscaram dentro de mim mesmo.

Em seguida fui abduzido pelo seu perfume e viajei milhas e milhas perdido naquele cheiro de mulher. Era único, era tentador, quase um vício.

Ela tinha covinhas sacanas nas costas, seios que cabiam direitinho na palma das minhas mãos e pés que pisavam de leve no meu coração. E o que dizer sobre suas pernas? Ah, que lindo par de pernas! Eram elas que em mim se enroscavam no meio da noite, eram nelas que eu me perdia nas manhãs de domingo.

Ela gostava de deitar na grama do seu jardim suspenso e contar estrelas de madrugada. Sonhava acordada com a lua cheia enquanto vagava só de calcinha pela imensidão do seu espaço sideral.

Ela era perfeita na sua imperfeição, era engraçada na sua tristeza, era forte na sua insegurança e me fascinava sempre como se a estivesse vendo pela primeira vez. Era ela. Me comovia. Me apaixonava.

Um dia, sem mais nem menos e enquanto ela ainda dormia seu sono enredado, decidi que havia chegado o momento de partir. Olhei pela última vez aquele seu corpo dourado que brilhava no escuro do quarto, inspirei fundo em seu pescoço pra usar seu perfume como combustível ao longo da travessia, vesti minha camisa de linho, meu chapéu Panamá e fui embora pra nunca mais voltar.

Covardemente desapareci do seu mundo porque percebi que eu não era homem suficiente pra ela. Mas ela sim era mulher suficiente pra mim.

Espero que você me entenda, Ana, só Ana.
Assinado,
O Homem do Chapéu Panamá





Veja mais Posts

0 comentários