Carta aberta pro menino de Jundiaí

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Oi, querido!

Como é que você tá? Como está a vida por aí e como ficaram as coisas na sua cabeça depois daquele nosso encontro inusitado que certamente mudou a sua vida e me fez enxergar a minha de forma bem diferente? Pensou em tudo o que eu te disse? Repassou mentalmente mais uma vez cada uma das palavras que joguei na sua cara sem nem ao menos saber seu nome? Espero que tudo esteja bem, que você tenha clareado as suas dúvidas e esteja em paz agora, cuidando dos animais no zoológico, surfando na sua praia preferida quando o dia se põe no horizonte e bebendo a sua cerveja com os amigos la naquele pub onde nos conhecemos.

Sabe, menino, pensei muito no que te disse naquela noite enquanto fumávamos um cigarro debaixo de um céu de estrelas num dos lugares mais lindos do planeta. Você não pode voltar pra cá, não agora. Posso imaginar o tamanho da saudade que você sente da sua família, dos seus amigos e até daquela namoradinha que deixou por aqui. Sei o quanto é difícil ter que se virar sozinho, correr atrás do próprio sustento todo dia, pagar contas, aturar gente chata no trabalho. Mas essa é a vida adulta, menino, e esse é só o começo. Estando aí você pode se considerar um cara de muita sorte porque ganha um salário digno, tem acesso a um transporte público de qualidade, pode caminhar tranquilamente pelas ruas sem ter que ficar olhando pra trás com medo de ser assaltado, pode usufruir do sistema de saúde sem ter que esperar um ano pela consulta, pode deixar sua mochila com o seu Iphone e sua carteira na areia enquanto se refresca no mar sabendo que ela continuará ali quando você voltar, entre tantas outras coisas que aqui você jamais faria ou teria acesso.

Aqui no nosso país, caso você não lembre mais, é impossível atender o celular enquanto caminha pela rua porque você pode ser roubado. Se precisar de atendimento no nosso Sistema Único de Saúde, você terá que planejar a doença com pelo menos um ano de antecedência pra poder conseguir o tratamento em tempo. Os rodoviários fazem greve de 15 dias e o povo não tem como ir e vir pro trabalho. Quando faz calor demais, o fornecimento de energia elétrica não funciona e experimentamos a sensação que nossos antepassados tinham quando viviam em cavernas. Quando chove as cidades alagam e ninguém consegue trafegar nas ruas. O sinal de 3G da nossa rede de telefonia móvel não funciona sempre, especialmente se você for cliente Tim. O governo rouba muito o nosso dinheiro e ninguém faz nada. Os que fazem, acabam mortos atingidos por um rojão. Aqui você só é alguém se você tem alguma coisa. Ninguém se importa se você é do bem ou do mal, desde que você more na casa do ano, no bairro do ano, dirija o carro do ano e tenha a bolsa it must have do ano pendurada no braço. Ah! E pra encurtar a lista e refrescar um pouco mais a sua memória: as pessoas se matam nas ruas exatamente como os selvagens faziam na Idade da Pedra Lascada. A diferença é que o tacape usado anteriormente evoluiu e se transformou num revólver. De resto, continua exatamente a mesma coisa.


E então, menino, vai mesmo querer voltar?


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