Foi apenas um sonho?

by - 22:04

Parei de repente pra te ver passar, atravessando a rua com os olhos desconfiados, atento a todos os lados antes de pisar na faixa branca de segurança. Teus pés moviam teu corpo pelo asfalto quente do sol de dezembro com a lentidão de quem, ressabiado, temia um novo acidente.

Te segui por entre as calçadas; meu olhar fixo no teu andar enquanto te acotovelavas com outras pessoas, desviando dos vendedores ambulantes, fugindo das velhas ciganas que queriam ler o teu destino na palma da mão. O teu futuro, eu sei, ja está definido. 

Te vi entrar em casa e encontrar meu corpo sorridente na poltrona preta no canto da sala. Teus olhos pulsaram ao me ver. Teu coração bateu junto com o meu e me enrosquei em teu abraço porque há muito não te via. A santa imaculada nos observava com espanto e Jesus Cristo crucificado na parede nos julgava. Não há pecado, meu Deus, quando dois corpos vibram na mesma temperatura, quando as entranhas se reconhecem, se entendem e se conectam. Não faz-se necessário pedir perdão, rezar mil ave marias, ajoelhar no altar da santa igreja e fazer promessas para salvação.

Te vi deitar ao meu lado na cama de lençóis coloridos e onde a luz da lua iluminava a escuridão com os raios que atravessavam a cortina de voil branco. Senti teu braço repousar mansamente sobre meu quadril, tua respiração leve embalar meu sono, teus pensamentos perdidos pelo espaço do quarto me contarem a tua história de andanças pelos quatro cantos do planeta.

No silêncio da manhã que se anunciava pelas frestas da janela, te deixei dormir com o canto dos pássaros e fiz meu caminho de volta. Deixei meus cabelos espalhados pela tua cama, pelo chão da casa toda e se procurares bem, ainda irás encontrá-los na gaveta do roupeiro que costumava ser minha e que hoje ainda é vazia, ou que já guarda as novas recordações de um outro alguém.

Te vejo agora voar por entre as torres da velha ponte, pisar a grama verde que só existe aqui, te enxergar refletido nas vidraças espelhadas dos prédios enormes percorrendo o caminho para onde, um dia, foi  teu lar. Vi olhares de felicidade, beijos de saudade, gente em tua volta reunida.


E então parei apenas para te contemplar, te sorrir e te esperar.

Veja mais Posts

0 comentários