Chuveiro elétrico

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O despertador tocou no horário de sempre, às 5h50 da manhã. O sol de novembro ja iluminava o dia lá fora. Levantei ainda cambaleando de sono e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro elétrico e esperei que o vapor tomasse conta do box de vidro proporcionando um efeito de gelo seco no pequeno espaço. Enfiei o corpo inteiro debaixo do jorro de água quente e alcancei o tubo de xampu da prateleira. Despejei o líquido denso e esbranquiçado na palma da mão, deixei que alguns pingos d’água se juntassem propositalmente e misturei tudo com a ponta do indicador direito. Distribuí o xampu pelo cabelo massageando cuidadosamente a cabeça inteira. De olhos fechados era possível dormir um pouco mais.

Senti saudade daquela noite em que nos conhecemos naquela festa. A rede no meio da sala, os amigos em comum e os tantos estranhos pelo meio do caminho. Lembro da janela, do teu sorriso e da chuva fina que caía la na rua. Depois a cerveja no copo de vidro me fez ter apenas uns flashes do que aconteceu. Não sei bem onde começou, mas sei onde terminou.

A espuma do xampu escorre lentamente pelo meu rosto e um pouco dela entra nos meus olhos, fazendo arder. Esfrego com a toalha. Enxaguo o cabelo e repito a operação: mais xampu, um pouco de água, mistura tudo com a ponta do indicador direito, distribui sobre os cabelos molhados e massageia a cabeça bem devagarinho até entrar em torpor mais uma vez.

O cheiro da canela com o leite quente, o som que tocava no Mac, não entendo. Foi tudo muito rápido, como um sonho bom. Mas sempre achei que aquele sonho não era pra mim, era demais, não merecia tanto. Ficaram as flores que nunca morreram e a caixa da correspondência agora é triste. 

Mergulhei novamente a cabeça debaixo do chuveiro quente pra tirar o excesso de xampu. Peguei o tubo de condicionador e sacudi sobre a palma da mão até que uma bola cremosa despencasse com certa dificuldade. Espalhei o produto pelas pontas, distribuindo bem entre a parte de cima e a de baixo do cabelo.

Saudade da vista da ponte na selva de pedra, dos desenhos que se espalham pelo teu corpo, do portão de desembarque daquele aeroporto que mais parece uma rodoviária interiorana, das tantas e tantas fotos, de adorar o por do sol do teu lado, de contar os dias, as horas, os segundos pra te ver de novo. Dói de um jeito que nunca doeu antes. Corta de um jeito que nunca cortou antes.

Ensaboei meu corpo com aquele sabonete que tem cheiro de bebê que eu gosto. A água me aquecia, senti um pouco de calor e abri uma fresta da janela. Lá fora o dia começava e pude ver o movimento dos carros na avenida.

Não sei por onde tu anda agora, mas ainda assim te espero.

Tá na hora.  Enfiei a cabeça de novo debaixo da água quente pra tirar o condicionador do cabelo. Enxaguei o corpo, deixei que a espuma do sabonete de bebê escorresse pelo ralo junto com aqueles pensamentos. Dei um longo suspiro e desliguei o chuveiro. Falta pouco.


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