Cansei de NÃO ser sexy

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Dia desses depois de um papo esclarecedor com um amigo sobre os meandros das relações homem X mulher em que me senti um lixo no final da conversa, seriamente cogitei a possibilidade de me tornar uma piriguete. É, você leu certo: piriguete. Usar decotão lá no umbigo, salto agulha de 20 centímetros e calça jeans embalagem à vácuo. Sensualizar 24x7. Quem me conhece sabe que o estilo femme fatale passa longe de mim. Uma vez um cara falou que eu era muito cisne branco (fazendo uma analogia à personagem da Natalie Portman no filme Cisne Negro), que eu deveria ser mais cisne negro (alô, cara, o cisne negro mora aqui dentro, você é que não soube a senha pra destrancá-lo do seu porão. Pena.). Sou mais discreta, mais despojada, alternativa. Gosto de falar bobagem, ser irônica. Um amigo disse uma vez que eu tenho personalidade de homem num corpo de mulher e isso pra mim, acreditem, foi um grande elogio. Fazer gênero não é a minha especialidade, principalmente o gênero piriguete e sonsa.

Então li na última edição da revista Alfa um texto assinado pela Tati Bernardi falando exatamente sobre esse “drama da gaúcha que não sabe ser sexy o tempo todo”. Se não tivesse sido escrito por ela, que é fera na arte de dominar as palavras, poderia ter sido escrito por mim. Porque concordo com ela da primeira à última linha, até o ponto final. Deixo pra vocês então as confissões da Tati.

Cansei de NÃO ser sexy
Nesta semana, minha analista falou uma frase que mexeu muito comigo: “Suas piadas te compraram um apartamento, mas quem vai morar nele com você?” Ela não estava me julgando, sendo machista ou defendendo o casamento. Era apenas provocação, recurso cruel que os lacanianos adoram.

Este ano escrevi (e vendi) seriados, peças de teatro, filmes e ainda colaborei para uma novela. Parece que vai tudo bem. Mas não vai. Não tive a companhia de um cara realmente interessante para celebrar comigo essas conquistas. Até aparece um ou outro para um chamego urgente e superficial, mas ninguém de quem eu vá lembrar o nome até o domingo que vem.

Sou cínica e engraçadinha. Sempre achei que isso era o suprassumo do charme, mas cansei de ver meus mais esforçados raciocínios irem pro esgoto assim que uma mulher um pouco mais montada na fantasia de fêmea (e quieta!) entrava no mesmo recinto. Nem por isso tive saco para me tornar uma delas. Faço piadas escatológicas numa mesa com a mesma naturalidade com que peço um suco de abacaxi. Não sei ser mocinha, não vejo graça nelas, não vejo graça nos homens que veem graça nelas e pior: acho que morreria de desgosto se tivesse que me portar tal qual uma sonsa de salto agulha e tatuagem de estrelinha no calcanhar pra “arrumar marido” (só de pensar na frase “arrumar marido”, ja tenho vontade de promover uma suruba lésbica na minha casa).

Sei o poder das cabeludas com seus saltos altos e calças de couro, olhos muito bem maquiados e doces vozes. Mas eu tô sempre atrasada, ocupada, confusa e com preguiça demais pra começar a me arrumar duas horas antes do que estou imaginando. Em tem outra: ser sexy dá frio e gases. Calças muito apertadas e decotes são inimigos da saúde feminina. Dá amigdalite e puns desesperados para se libertar. E isso é bem pior para a performance de uma mocinha do que a felicidade despretensiosa de uma roupa confortável.

Até faço um tipo mais feminina-fatal quando SEI que vou ver um cara bacana e que me atrai. Agora, não entendo a sexualidade lançada para o nada. Se vou até o cartório e não estou afim do escriturário, pra que sensualizar fazendo voz rouca e olhos de águia misteriosa? Se vou até a padaria e não estou louca pelo padeiro, pra que botar salto, maquiagem e decotinho? Se vou pra uma reunião de trabalho, pra que roubar a atenção das minhas ideias para as minhas pernas numa saia curta? Até fazia isso com 22 anos, quando meus hormônios queriam trepar até com o ar e quando minha necessidade de ser desejada superava meu senso crítico... Mas como 34?


Respondi pra minha analista que o problema não estava em mim. Eu confiava no poder do meu “jeito”. Eu não confiava era no bom gosto dos outros. Ela riu. Ainda não sei se por identificação ou por quê, diante de tantos defeitos, sou ao menos engraçada.

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