Círculos viciosos

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Gosto muito da Hilda Lucas, que escreve na revista Lola, e presto um serviço de utilidade pública postando aqui um texto que ela publicou na edição de junho. Lúcido, bem escrito e verdadeiro como sempre.


Sai daí, mulher!
Hilda Lucas

Um dia, você pode se dar conta de que  anda contando muitas histórias para si mesma. De que para justificar suas escolhas, sua inércia ou suas frustrações você constrói teorias, manipula lembranças e até inventa fatos. Um dia, para seu desconforto, pode perceber que não cabe mais nas suas desculpas, que a torre na qual se encastela não a protege de nada, a não ser de viver novas experiências e, pior, que a porta está sempre aberta, é você que não sai.

Nesse dia, você vai ficar assustada, sem saber para onde ir. Ótimo. Você começou a buscar uma brecha no círculo. Sabe aquela frase “é ruim, mas é bom”?

Círculos viciosos são labirintos internos com ar viciado e saídas invisíveis, feitos de conformismo, pensamentos obsessivos, dores estagnadas e desculpas esfarrapadas. São prisões, às vezes douradas e glamurosas, que vamos levantando ao nosso redor; armaduras que vestimos em nome da proteção e da estabilidade. Sim, somos mestres em boicotes, adiamentos, autocomiseração. Engendramos raciocínios sofisticados para legitimar o que fazemos e afastar o que não queremos ver; maquiamos lembranças de felicidade. Adoramos justificar as derrotas e polir nossas dores, apegamo-nos a elas. As dores, muitas vezes, viciam e nos fazem andar em círculos. São veneráveis desculpas. Cuidados com suas dores. Depois de bem vividas, livre-se delas.

Círculos viciosos são infernais porque encerram a eterna repetição e a impossibilidade de mudança. Como no mito, rolamos, todo dia, ladeira acima, a pedra que invariavelmente descerá ladeira abaixo.

No quesito relacionamento, a coisa é complicada.É difícil perceber porque toda repetição dá uma ideia de segurança, mesmo que seja falsa e nociva. Empacamos em relações falidas, frustrantes. Repetimos padrões de comportamento desgastados, insistimos em velhas fórmulas e reagimos de maneira condicionada, recorrendo sempre aos mesmos expedientes e repertórios. Gastamos um tempo enorme convencendo-nos de que estamos fazendo a coisa certa, trabalhando no lugar certo ou ficando com a pessoa certa. Justificamos nossos desconfortos, desprezamos nossa intuição e desconsideramos cenas explícitas de horror ou desrespeito. Vamos nos enredando em apatia, sem-gracice ou descontentamento mudo; queremos que nossos investimentos pessoais – emocionais e profissionais – deem certo, e às vezes pagamos pra ver, e pagamos caro. Vamos compondo aqui, empurrando com a barriga ali, enquanto pensamos: “É assim mesmo, uma fase, vai passar...” ou então “Detesto o que faço, mas o salário compensa” ou ainda “ Ele tá assim porque anda muito estressado, coitado...”. Ás vezes, é realmente assim mesmo, uma fase e vai passar; às vezes não.

Respeite a pulga atrás da orelha.Fique atenta àquela inquietação sem nome, às causas da sua insônia e às somatizações: alergias, gastrites, crises asmáticas. Fique esperta com seus devaneios. Para onde vai seu pensamento quando você está indo pro trabalho ou voltando pra casa? Fique incomodada com certos silêncios: tem coisa mais triste do que aqueles casais nas mesas de restaurantes que não conversam, comem em silêncio sem se olhar e ficam aliviados quando o celular toca ou entra uma mensagem? Fique atenta às suas fantasias: sexo, beijo, intimidade, é tudo um termômetro.

Chame para si o ônus das suas escolhas. A DR é com você mesma, não tem jeito. Não terceirize responsabilidades. Temos mais de atribuir ao outro os nossos fracassos e frustrações; passamos procurações de “Faça-me feliz e realizada” e depois reclamamos quando as coisas não acontecem como imaginamos. O outro é o outro e não vai nem salvá-la e nem tapar seus buracos. O outro pode ter até ajudado a armar o laço, mas foi você quem entrou e, pior, ficou. Não atribua ao outro o que é seu. Rasgue o cartaz Vítima Procura Algoz.
Saia da fila, abra janelas, mude o canal. Permita-se dizer não, aquele não que é sim. Cometa novos erros, tenha novas manias, vícios, rotinas, mas quebre a corrente. Livre-se do eco das velhas conversas e falas previsíveis. Faça outras perguntas, busque outras respostas. Exercite o por que não? e o por que sim.

Círculos viciosos rompem-se com inconformismo e o inconformismo é um vírus que faz aumentar a lucidez e a coragem. Não precisa chutar o balde, queimar a casa, virar a mesa; não precisa se separar, sair do emprego, mudar de cidade. Apenas pare de andar em círculos, como aqueles brinquedos movidos a pilha, que se repetem até esgotar a energia.

Um dia você pode se dar conta de que está pronta pra mudar, andar em outra direção. É como acordar sem febre depois de um longo período de agonia. Nesse dia você enxergará as saídas então invisíveis, sentirá uma coragem tranquila e, sem alarde, romperá as barras que são, quase sempre, imaginárias.

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