O primeiro conto

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A merda da inveja


A inveja é uma merda, reza aquele velho ditado popular.


Katilene e Katiúscia eram as gêmeas da família Barboza. Não eram idênticas e esse era o grande motivo da discórdia entre as duas. Katliene era rechonchuda, tinha os cabelos crespos e rebeldes como os da mãe. Usava óculos com lentes fundo de garrafa porque herdou  da matriarca 5 graus de miopia. Se odiava. Katiúscia não. Katiúscia era magra, esbelta, pernas torneadas e porte elegante como o do pai, o pastor da igreja evangélica da comunidade onde moravam. Aspirante à top model, era faceira, vivia rodeada de amigas e atraía para si todos os olhares dos vizinhos, inclusive o de João Boquinha, o mecânico pela qual Katilene era apaixonada e com quem teve um noivado rápido, que foi interrompido pela paixão avassaladora que ele sentia pela então cunhada.

Desde muito pequenas as diferenças entre as gêmeas se faziam visíveis e incomodavam Katilene, que foi soterrada pela presença forte e alegre da irmã. Cresceu sob sua sombra, ja que todas as atenções eram sempre voltadas pra ela. Por isso, desenvolveu uma personalidade agressiva, rancorosa e invejosa. Desejava ser como a irmã Katiúscia, queria ter o que ela tinha. Queria o cabelo liso e brilhante de comercial de shampoo que a irmã balançava orgulhosamente toda vez que saía do banho. Queria seu corpo enxuto, suas pernas lânguidas e bem esculpidas, suas roupas da moda, sua voz rouca e sexy. Não conseguia conceber a ideia de terem sido geradas ao mesmo tempo no mesmo ventre e terem nascido tão diferentes uma da outra. Invejava cada pedacinho do corpo e do caráter de Katiúscia e passou a odiá-la de morte quando seu então noivo, João Boquinha, a largou pra ficar com a cunhada.

- Em nome do Senhor, Katiúscia, que você arda nas chamas do inferno, sua cadela desalmada!!! – Gritava Katilene irada no dia em que soube que seu noivo estava lhe deixando para ficar com a irmã.

Katiúscia desde sempre soube que era gostosa e que tinha o poder de hipnotizar quem quer que fosse com seu carisma e seus decotes vertiginosos. Trabalhava como balconista na butique do bairro e por isso tinha acesso à roupas de marca, caras, que sua irmã Katilene não tinha condições de comprar com seu salário mínimo de secretária de dentista. E o prazer de Katiúscia era causar inveja na irmã gêmea, então fazia questão de desfilar seus 53 quilos bem distribuídos em trajes  justos e curtos. Sabendo que a pobre coitada Katilene vivia de dieta, Katiúscia se deliciava devorando barras de chocolate, bombons e a nega maluca que a mãe fazia na frente da irmã apenas para despertar sua inveja.

Depois de longos dois anos de noivado para que o clima na casa dos Barboza se acalmasse e a paz voltasse a reinar entre as gêmeas, João Boquinha finalmente pediu a mão de Katiúscia em casamento. Marcaram a data da bôda para dali 8 meses, tempo suficiente para que todos os preparativos para a grande festa fossem feitos. Katiúscia estava radiante com o anel de ouro que havia ganho do noivo e Katilene, apesar de ter prometido para os pais que iria ficar de bem com a irmã, ardia de inveja por dentro. Rezava horas a fio na igreja evangélica do pai e se submetia às sessões de descarrego pra tentar se livrar daquela cólera, mas a inveja e a ideia de vingança só aumentavam dentro dela. E resolveu arquitetar um plano pra desmoralizar de vez a irmã e acabar com aquela sua felicidade.

Como prova de que havia de fato passado uma borracha no passado e que perdoava a irmã e João Boquinha, Katilene insistiu para que a deixassem preparar o bolo do casamento. Havia aprendido uma receita nova num programa de TV que costumava assistir no consultório do dentista onde trabalhava e queria muito presentear os noivos com tal gesto de carinho. Katiúscia desconfiou num primeiro instante, mas resolveu dar um voto de confiança à irmã e selar a amizade das duas outra vez, então aceitou o bolo que ela insistia em preparar. Katilene, invejosa e maquiavélica, era só gargalhadas por dentro elaborando a receita especial para o doce que ofereceria aos noivos.

Uma semana antes da festa de casamento, comprou o laxante mais forte na farmácia de seu Jeremias e tomou cinco doses do remédio para se certificar de que não iria faltar o mais especial dos ingredientes para o bolo da noiva. Passou noites em claro no banheiro se esvaindo. E quando ja tinha a quantidade suficiente de fezes, misturou tudo à massa do bolo, cobriu com uma linda pasta americana em forma de coração e decorou com dois pombinhos apaixonados.

Os noivos deliciaram-se com o bolo feito da merda de Katilene, lamberam os beiços sem desconfiar do que se tratava enquanto ela morria de rir escondida no banheiro, regozijada de sua vingança. Riu tanto, mas tanto, que acabou passando mal engasgada com alguma coisa que não sabia bem o que era. Debateu-se no chão e tentou gritar por socorro. Não conseguiu. Morreu ali mesmo sufocada pela sua euforia.


É, a inveja é mesmo uma merda.

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