(Não) Temos nosso próprio tempo

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 “O bem mais valioso de nossa época não é o diamante nem o petróleo, a fórmula da Coca-cola ou o sorriso da Natalie Portman: é o tempo. Obedecendo à lei da oferta e da procura, quanto mais escasso ele fica, mais caro nos é. A seca temporal é geral e irrestrita, tão democrática quanto a calvície, a saudade e a morte: eu não tenho tempo, você não tem tempo, o Eike Batista não tem tempo, o cara que está vendendo bala no farol, em agônica marcha atlética para recolher os saquinhos dos retrovisores, antes que abra o sinal, também não tem”, escreveu Mário Prata brilhantemente em seu blog na Folha de São Paulo.

Com base nesse pedaço do texto, eu poderia escrever sobre o tempo numa infinidade de vertentes e sob diversos aspectos, mas escolhi um só para abordar neste post: o tempo de descanso. Ou, num outro significado, as férias.



Todos aqueles que trabalham em órgãos públicos ou empresas privadas sérias – não estou falando de agências de propaganda, start ups de internet ou estúdios de design que essas não são empresas sérias – tem por ano 30 dias de férias, direito assegurado pela legislação trabalhista embora as agências de propaganda, as start ups de internet e os estúdios de design façam questão de não cumprir. Mas isso é outro assunto pra outra hora. Voltando às férias: todo trabalhador brasileiro pode desfrutar de um perído previamente estabelecido para descansar do trabalho e da rotina do escritório. Normalmente as pessoas dividem esse tempo em 2 períodos de 15 dias ou 1 período de 10 e outro de 20, não importa. O fato é que o cidadão que trabalha tem direito ao descanso. Há ainda a opção de vender esse tempo de ócio para o empregador e transformar o tempo livre em dinheiro. Pessoas endividadas ou impossibilitadas de viajar trocam suas férias por bom depósito na conta corrente. Eu não.



Enquanto pessoa jurídica eu proíbo minha pessoa física de vender suas férias por mais endividada que possa estar. Esta cláusula não consta na política da minha empresa. O meu tempo livre não tem preço, não há American Express, Dinners, Visa ou Mastercard black, silver, golden ou platinum sem limite que paguem. Não há prêmio de mega sena acumulada ou fortuna do Warren Buffet que me traga de volta os meus momentos de dolce far niente nem que seja pra ficar jogada no sofá de casa assistindo Sessão da Tarde por 20 dias, caso não tenha verba disponível pra uma viagem pela Europa ou mesmo pra pagar um pacote da CVC pra alguma praia do nordeste.



Tempo não se vende, é item não disponível em nenhum mercado. Nem a junção das fortunas dos top magnatas da Forbes é capaz de comprar o segundo que passou, os instantes contemplando o teto ou passeando calmamente pela rua, os minutos pra apreciar o café da manhã sempre sorvido numa correria frenética ou simplesmente aquele tempinho a mais debaixo das cobertas num dia de inverno. Dinheiro, ao contrário, se compra com muita facilidade e sem nem precisar apresentar documento de identidade ou comprovante de residência.



Mais valem 20 dias sem fazer nada, simplesmente podendo se dar ao luxo de coçar o saco em casa, do que vender seu tempo e seguir correndo pra tentar fazer tudo. Pense nisso.

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